sábado, 22 de outubro de 2016

A RENÚNCIA DE BELMONDO O CANGACEIRO DA FURNA


A Renúncia de Belmondo - O Cangaceiro da Furna

A Renúncia de Belmondo

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A palavra Cangaceiro
é feia, mas atrativa,
muitos homens do cangaço
deixaram marca bem viva
no conceito nordestino
desta terra progressiva.

As lembranças do cangaço
é como um herói na urna
que repousa calmamente
numa lápide soturna
mas eu vou lembrar: Belmondo
O Cangaceiro da Furna.

Belmondo foi um bandido
que serviu a Lampião,
lutou muito junto a este
e viu de certa distância
a sua consumação.

Ele chorou muito ao ver
a morte dos companheiros
do seu chefe e da mulher...
nas brenhas dos tabuleiros,
por forças que destruíram
o reino dos cangaceiros.

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Ele seguiu sem destino
levando somente a vida,
seu fuzil, com poucas balas,
uma farda já rompida,
como também a lembrança
do que foi água e comida.

Balas para o seu fuzil
ele tinha poucas cargas,
mesmo assim partiu sozinho
com suas passadas largas,
comendo só folhas secas
e as ervas bastante amargas.

Nessa viagem penosa
Belmondo sofreu demais,
sentindo a sede matá-lo
nas campinas florestais,
um mundão de folhas secas
que restou dos vegetais.

Belmondo sem ter destino
muitos dias viajou,
por milagre ou por ajuda
certa vez ele avistou
um regato ao pé de um monte
e pra lá se encaminhou.

Foi onde ele encontrou água
ali naquele ribeiro
ele saciou a sede
e disse: - O pé deste outeiro
agora salvou a vida
de um terrível cangaceiro.

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Por aqui se morar gente
eu pedirei pra ficar
trabalhando de vaqueiro
ou mesmo para lavrar
a terra e ganhar o pão
sem mais a ninguém matar.

Eu pretendo trabalhar
para qualquer fazendeiro
pelo sossego e comida
e a água deste ribeiro
porque desejo deixar
a vida de cangaceiro.

Enquanto Belmondo estava
em suas reflexões
chegaram dois rapazinhos
com seus gestos de patrões
perguntado-lhe: - O que faz
em nossas dominações?

Nós somos proprietários
deste vale e desta serra,
mas somos gente pacífica
e não gostamos de guerra,
por isto não aceitamos
cangaceiro em nossa terra.

Tem dez minutos de prazo
para nos deixar em paz,
do contrário forçaremos
a você tipo sequaz
sair da nossa presença
sem olhar nem para trás.

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Belmondo disse: - Eu lhes peço
para ouvir minha história,
certo eu sou um cangaceiro
fracassado, sem vitória,
que deseja abandonar
essa carreira ilusória.

Dê-mem trabalho e comida
que terão meu forte abraço,
o que mandarem fazer
eu juro por Deus que faço
e deixarei para sempre
as veredas do cangaço.

Os dois irmãos se olharam
bastante desconfiados,
depois retruca o mais velho:
- Ouvimos seus gaguejados,
mas diga onde estão os outros
seus amigos celerados?

Belmondo ali contou tudo
como morreu Lampião
falou da sua fugida,
da fome na sequidão
e como chegou ali
para a sua salvação

Disse um moço: - Santo Deus!
então Lampião morreu?
Belmondo respondeu: - Sim,
alguém o surpreendeu
e dos seus cabras na hora
só quem escapou fui eu.

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Paulo, o mais velho, benzeu-se
e disse: - Isto é bom demais,
pois o senhor saiba agora
que seu chefe, aquele audaz,
foi quem matou num assalto
aos nossos queridos pais.

Nós três ficamos sozinhos
com esta propriedade
e jamais esqueceremos
os nossos pais de bondade
que Lampião os matou
com sua perversidade.

Belmondo aí perguntou-lhe:
- E vocês são três irmãos?
disse Paulo: - Sim bandido,
três órfãos e bons cristãos
que temos um assassino
trancado nas nossas mãos.

Eu sou Paulo, o mais idoso,
este aí é o Ismael,
mas temos uma irmãzinha
com o nome de Isabel,
nossos pais foram: Janira
e João Melo Rafael.

Você cabra vai morrer!
pois serviu a Lampião,
com certeza o ajudou
na tremenda execução
dos nossos bondosos pais
os melhores do sertão!

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Diz Belmondo: - Eu me absolvo
desta acusação tirana,
eu nunca vim nesta terra
tão bonita e tão bacana,
meus pés a pisaram hoje
com fé numa ajuda humana.

É certo que trabalhei
no bando de Lampião,
mas não fui participante
da citada execução
que deixou seus pais sem vida,
nisto eu lavo a minha mão.

Deixem-me ficar aqui!
tenham dó da minha sorte!
eu não quero seguir mais
esse caminho de morte,
quero cultivar a terra,
pois inda sou homem forte.

Paulo lhe disse: - Está bem
ouvimos a sua voz,
mas falta ainda Isabel
nossa pulguinha de cós,
ela aceitando, você
trabalhará para nós.

Mas entregue a sua arma
para eu guardá-la primeiro
em casa, troque essa roupa
que já demonstra mal cheiro
e se esqueça para sempre
que já foi um cangaceiro.

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Desta maneira, Belmondo
mudou seu nível de vida,
na fazenda dos três órfãos
encontrou roupa e comida,
ficou lá servindo aos três
como uma família unida.

Isabel gostou bastante
de Belmondo, o bandoleiro
que tratava bem a todos,
com afeto verdadeiro,
a ponto de se esquecer
que já foi um cangaceiro.

Mas quem já foi cangaceiro
perdeu sua liberdade,
para esse não há mais
a paz, nem tranquilidade,
a sua vida é truncada
em toda sociedade.

Belmondo estava feliz
com os seus novos patrões,
sem saber que sua sorte
mudava de dimensões
e o seu destino jogava-o
para novas confusões.

Certa vez uma volante
que percorria o sertão,
procurando cangaceiros,
visitou esse rincão,
assim Paulo e Ismael
seguiram para a prisão.

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Os dois distintos rapazes
foram tidos por coiteiros
destes que davam trabalho
a ladrões e cangaceiros,
desonrando o grande nome
dos famosos fazendeiros.

Belmondo não fora preso,
porque se encontrava fora,
trabalhando nuns revezos,
chegou já depois da hora
da batida da volante,
que já se tinha ido embora.

Ele chorou de desgosto
pela prisão dos rapazes,
mas disse para Isabel:
- Estes malditos sequazes
prenderam dois inocentes,
só para tal são capazes.

Eu vou tirar seus irmãos
desse castigo cruel,
eles são rapazes limpos,
pode crer nisto Isabel,
eu juro trazer de volta
nosso Paulo e Ismael.

Desta maneira, Belmondo
voltou a ser cangaceiro
armou-se e seguiu o rastro
desse batalhão guerreiro,
com o fim de trocar balas
ou morrer num tabuleiro.

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A tardinha, numa sombra
tinha a volante parado
para ali passar a noite
com os dois presos de lado,
quando de repente viu
Belmondo chegar armado.

Belmondo em sinal de aviso
deu dois tiros para o ar
e gritou: - Quero os rapazes!
vim aqui para os levar,
mas do contrário vocês
vão ver macaco dançar.

O comandante deu ordem
de atirarem em Belmondo,
este disse: - Sendo assim
vai ser bonito o estrondo!
pois vão mexer com a casa
do mais feroz marimbondo.

Escondam-se meus rapazes!
não participem do samba,
deixem-me sambar sozinho
no passo da perna bamba,
hoje aqui macaco dança
invocando o som da gamba.

Nisso ele recebeu logo
trinta tiros dos soldados,
Belmondo deitou-se rápido
com manejos controlados,
mandando como resposta
seus besourinhos dourados.

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A bala choveu no campo,
o folharal desabava,
o marmeleiro caia,
poeira seca voava,
a soldadesca morria,
quanto o Belmondo, embolava.

Os dois rapazes ficaram
em uma rocha escondidos
a bala tinia em cima
com eles bem encolhidos,
enquanto vários soldados
voavam nos estampidos.

Logo aproximou-se a noite,
Belmondo se entrincheirou,
mandou bala nos soldados,
mais da metade matou,
o comandante correu
e o resto... lhe acompanhou.

Belmondo compreendendo
que já se achava sozinho,
chamou logo os dois rapazes
e disse: - Este desalinho
não deu-se por minha culpa
é que tenho o dom mesquinho.

Voltem para a sua casa,
você Paulo e Ismael,
eu vou seguir meu destino
tragando este amargo fel,
dê-mem lá meu triste adeus
para a bondosa Isabel.

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Eu sei que não posso mais
voltar à sociedade,
vou procurar uma gruta
pra minha tranquilidade,
reconhecendo que tive
três amigos de verdade.

Talvez um dia eu ainda
faça aos três uma visita,
mas por enquanto não posso,
pois tenho a sorte maldita
de não ter sossego nunca
neste jornada esquisita.

Assim Belmondo afastou-se,
deixando os irmãos sozinhos,
que voltaram à fazenda
nos mais tristes desalinhos,
por estarem nessas horas
trilhando rijos caminhos.

Em casa contaram tudo
para a irmãzinha Isabel,
ela disse: - Santo Deus!
o Belmondo é cascavel
Paulo disse: - É uma máquina
esmagadora e cruel

O quanto ele é bom para nós
é de ruim para os soldados,
em menos de duas horas
ele com dedos firmados
abateu mais de quarenta
com tiros bem controlados.

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Ele embolava no chão
igualmente um carretel,
um tiro não lhe acertava,
pode crer mana Isabel,
eu vi de uma rocha, vi tudo
calado com Ismael.

Belmondo mandou por nós
pra você o seu adeus
prometendo seguir
os tristes caminhos seus,
eu sei mana que a polícia
vai seguir os passos meus.

Que tristeza a nossa mana,
pois Belmondo é o nosso amigo,
ele abateu os soldados
pra nos livrar do perigo,
mas eu temo represália
e que soframos castigo.

Nós estávamos seguindo
pra sermos prisioneiros
onde houvesse uma cadeia
e julgados por coiteiros,
defensores de ladrões,
bandidos e cangaceiros.

Essa volante, voltando
não temos quem nos defenda,
você ficará sozinha
nesta tamanha fazenda,
eu e o mano ganharemos
uma detenção por prenda.

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Isabel caiu num pranto
dentro da noite soturna,
enquanto o cabra Belmondo,
naquela parte noturna,
embrenhou-se nas montanhas
à procura de uma furna.

Forçado pelo cansaço
num rochedo ele dormiu,
na manhã do outro dia
a viajar prosseguiu,
logo adiante, numa gruta,
uma entrada descobriu.

Cuja entrada dava acesso
para uma certa caverna,
mas pequena e apertada,
sem ar, lá na parte interna,
pois imitava uma urna
ou uma morada eterna.

Belmondo ficou ali
metido naquela urna
morada de cascavel,
triste, nojenta e soturna,
aí disse: - Eu sou Belmondo:
"O cangaceiro da Furna".

Ali Belmondo sentia
daquela furna o mal cheiro,
via cobras junto a si,
pensava com desespero:
- A polícia assim me obriga
a tornar ser cangaceiro.

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Eu não suporto esta vida
neste tristonho aposento,
sem cama para dormir,
sem água, nem alimento
e sem olhar as belezas
deste mundo turbulento.

Vou voltar para o cangaço,
o lado mais perigoso,
vou roubar, fazer assaltos
a rico pretensioso,
quanto esta furna será
meu descanso ou meu repouso.

Paulo! Meu prezado amigo!
és tão bom quanto Ismael,
eu se fosse um homem livre,
não um bandido cruel,
lutaria para ter
o santo amor de Isabel.

Mas quem sou eu para ter
o amor daquela santa?
muito embora que esse amor
no meu peito se agiganta
e o meu coração de monstro
bate tanto que se espanta.

Paulo e meu bom Ismael!
dois entes tão adorados,
por quererem proteger-me
são hoje dois odiados,
onde deveriam ser
meus dois queridos cunhados.

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Eu vou voltar à fazenda,
de longe observarei,
se a polícia persegui-los
eu logo lhe atacarei,
mesmo com risco de vida
juro que os defenderei.

Mas o ódio da polícia
não era contra os rapazes,
pois era contra o Belmondo,
cabra de pulsos capazes,
que serviu a Lampião
junto com outros sequazes.

Os dois rapazes ficaram
em paz na sua fazenda
cuidando da irmãzinha,
sua idolatrada prenda,
enquanto o cabra Belmondo
entrou na sua contenda.

Assaltos, roubos e mortes
surgiam pelas estradas
toda semana, se viam
muitas pessoas roubadas
nas travessias tiranas
dos pontos das emboscadas.

O povo já não podia
viajar nem para feira
com medo de ser roubado
pela fera traiçoeira
que lançou a tirania
em toda aquela ribeira.

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Novas volantes voltaram
a revistar o sertão,
mas nunca puderam ver
o rosto do valentão,
pois ele dava sinal
de morar dentro do chão.

Isabel dizia em casa:
- Esse bandido é Belmondo,
a polícia quis assim,
assanhando o marimbondo,
esse marimbondo lindo
que dele nunca me escondo.

Pois Belmondo inda era moço,
com feições finas e belas,
bem capaz de conquistar
as mais bonitas donzelas,
ele era do cangaço,
era o desejado delas.

Isabel amava muito
ao terrível bandoleiro,
os irmãos dela sabiam
desse segredo altaneiro,
mas para o bem da verdade
gostavam do cangaceiro.

Certa vez numa charrete
Isabel foi à cidade,
de volta, já nos limites
da sua propriedade,
viu Belmondo em sua frente
assaltando-a, de verdade.

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O vaqueiro de Isabel
que na charrete dirigia,
vendo aquele cangaceiro
de apavorado tremia,
Isabel vendo esse espanto
invés de chorar, sorria.

Depois disse para o Belmondo:
- Mate-me cangaceirinho!
Belmondo a reconhecendo
disse: - Perdoe-me morzinho!
ou acabe este demônio
que rompe as trevas sozinho.

Isabel disse: - Belmondo
deixe de ser cangaceiro,
volte à fazenda comigo,
seu lar, justo e verdadeiro,
meus irmãos desejam vê-lo
transformado num cordeiro.

Vamos Belmondo eu lhe adoro,
encare a realidade,
deixe a vida do cangaço
que eu dou-lhe a felicidade,
depois disto partiremos
pra outra localidade.

Você querendo deixar
esse viver infeliz,
eu vendo tudo o que tenho
neste recanto feliz,
depois iremos morar
noutra parte do país.

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Ele pergunta espantado
- E seus irmãos, Isabel?!
eles quando descobrirem
se transformarão em fel,
pois ambos sabem de sobra
que eu sou pior que Lusbel.

Ela disse: - Meus irmãos
já sabem que eu lhe amo,
sabem do meu sofrimento
e que por seu nome,  chamo
como também sentem muito
por lágrimas que derramo.

Belmondo disse: - Querida
eram estes meus desejos,
assim os dois se abraçaram
trocando colados beijos,
com paixão do sangue quente
que vibra dos sertanejos.

O vaqueiro de Isabel
tremia de atarantado,
queria correr de medo,
mas se achava amalucado,
só esperando o momento
de morrer estrangulado.

Depois dois beijos, Belmondo
disse rindo a Isabel:
- Volte à fazenda querida,
diga a Paulo e Ismael
que chegarei qualquer dia,
feito um cãozinho fiel.

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Eu vou para a minha furna
retirar certo dinheiro,
pois já tenho condições
de também ser fazendeiro,
só assim deixo de vez
a vida de cangaceiro.

Lá combinamos tudo
sobre a mudança de Estado,
pois com você, minha santa,
se eu chegar a ser casado,
sentir-me-ei nesse dia
um homem realizado.

Isabel partiu saudosa
pelas vastas florestas,
Belmondo viu seu vultinho
sumindo de mais a mais,
aí penetrou sisudo
por dentro dos matagais.

Já na fazenda, Isabel
contou aos seus irmãozinhos
desse encontro com Belmondo,
na cruzada dos caminhos,
deixando só de contar-lhes
a trocada dos beijinhos.

Com cinco dias depois
o Belmondo apareceu
trazendo muito dinheiro,
do triste trabalho seu
e numa parte da casa
com esse, ele se escondeu.

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Alta noite, uma volante
chegou com oito soldados
e um capitão comandante,
todos bastante enfadados
e na casa dos três órfãos
logo foram hospedados.

Depois de uma refeição
todos foram se deitar
em redes, na própria sala,
pois esse bendito lar
tinha conforto pra todos,
com sossego e bem-estar.

Belmondo permaneceu
em outra parte, escondido,
caso a volante lhe visse
ele estaria perdido,
pois pra todos ele era
Belmondo, o feroz bandido.

Logo mais todos dormiam
bem descansados da vida,
Belmondo não pregou olhos,
nem também sua querida,
às duas da madrugada
a casa fora invadida.

Uns oitenta cangaceiros
defronte a porta, pararam,
armados com seus fuzis
para os dois irmãos falaram:
- Abram para nós a porta!
e os seus fuzis dispararam.

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A porta da casa grande
ficou parecendo renda,
um bandido gritou: - Abram
para entrarmos na vivenda,
saquear todo o dinheiro,
depois queimar a fazenda!

O capitão da volante
ordenou aos seus guerreiros
o seu ataque aos bandidos,
assim esses justiceiros
meteram balas sem pena
no bando dos cangaceiros.

Os cangaceiros, pensando
que aquilo era dos de casa,
formaram-se em semicírculo
e logo mandaram brasa,
mas não parava o zunido
do besourinho sem asa.

Engrossou o tiroteio
na casa dos três irmãos,
os cangaceiros gritaram:
- Vamos entrar seus fuãos!
com mil e seiscentos diabos!
para esmagá-los de mãos.

Arrebentaram a porta
e de casa adentro entraram,
mas com rajadas certeiras
na sala, se depararam,
mais de vinte cangaceiros
nesse momento tombaram.

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Havia já outros vinte
sobre o terreiro, estendidos,
trinta prontos para a luta,
dez nos últimos gemidos,
dos oitenta era este o saldo
que restava dos bandidos.

Mas as balas dos soldados
estavam quase esgotando,
quatro já se achavam mortos
e os outros quatro lutando,
o comandante se via
vencido por esse bando.

Mas Belmondo de onde estava
toda a luta observou,
viu bem quando o bando armado
toda a vivenda cercou,
todo o final dessa luta
pra si próprio reservou.

Ele vendo que os bandidos
tinha a porta arrombado
e que o comandante estava
com efeito desarmado
rodeou a casa grande
e surgiu do outro lado.

Com calma ele fez trincheira
de um murinho lateral
e apontou seu bom fuzil
que sempre lhe foi legal,
matando cinco bandidos
com besouros de metal.

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Com velocidade incrível
ele ao fuzil disparava,
quando este estava vazio
Belmondo o recarregava
e com coragem de bicho
no cujo bando atirava.

Com meia hora não tinha
um bandido no terreiro,
só tinha sangue e carniça
de quem já foi cangaceiro,
ele aí gritou bem alto:
- Quero o chefe bandoleiro!

No salão a essa altura
não tinha um soldado vivo
a não ser o comandante,
que via um dispositivo
de dez armas lhe apontando,
de modo bem decisivo.

Belmondo igualmente um gato
pulou dentro do salão
gritando: - Eu mato o bandido
que ferir o capitão,
vamos seus cabras atirem
em mim que sou valentão!

Os bandidos de uma vez
contra o cabra dispararam,
Belmondo caiu rolando,
os dez com efeito erraram
atiraram novamente,
mas novamente falharam.

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O comandante escondeu-se
numa poltrona estofada,
Belmondo e os dez bandidos
seguiram sua brigada,
foi a luta mais bonita
que se deu de madrugada.

Toda a munição que havia
os cangaceiros gastaram
atirando no Belmondo
e nele não acertaram,
mas puxaram seus punhais
e contra o mesmo avançaram.

Belmondo também se achava
sem nenhuma munição,
entrou contra os dez punhais
somente de pé e mão,
causando o maior assombro
ao medroso capitão.

Contra Belmondo, os bandidos
avançavam de uma vez,
Belmondo só nas pezadas
derrubava cinco, seis,
aparava punhaladas
de dois capangas e três.

Um bandido magricela
arremessou seu punhal
contra o gigante Belmondo
que deu um salto-mortal
e quebrou a cara deste
numa tacada fatal.

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O cabra morreu ligeiro,
não viu mais o fim da festa,
sobraram nove bandidos
para dançar a seresta,
que já demonstrava ser
a mais tirana e funesta.

os nove cabras botaram
seus punhais no contendor,
Belmondo jogou-se ao chão
demonstrando o seu valor
e deu forte canelada
no seu primeiro agressor.

Cujo cabra foi ao chão
de forma bem violenta,
lascou a testa em comprido,
quebrou todo o pau da venta
e arrebentou cinco dentes,
deixando a boca sangrenta.

Depois Belmondo agarrou-o
com sua mão nos dois pés
rodou com ele na sala
cinco voltas, oito, dez
e jogou seu trapo em cima
dos cangaceiros cruéis.

Restaram oito bandidos
pra lutar contra Belmondo,
o capitão comandante
tremia muito, supondo
que Belmondo ia morrer
e pensava: - Onde eu me escondo?

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Este guerreiro de fibra
não resiste até no fim,
ele vai morrer furado
por qualquer um cabra ruim,
depois a carga pesada
recairá sobre mim.

Nunca vi na minha vida
um homem só lutar tanto,
estes oito cangaceiros
estão tremendo de espanto,
eu vou ficar quietinho,
vendo tudo deste canto.

Nisto os cabras rodearam
ao Belmondo com receio
este achou-se em semicírculo,
vendo um fim bastante feio,
pois no curral que fizeram
ele ficou bem no meio.

Outra mais que cada cabra
apontava-lhe o punhal,
o cerco foi se fechando
para um desfecho fatal,
mas Belmondo defendeu-se
de modo fenomenal.

Ele pôs as mãos no chão
e soltou grande rasteira,
depois virou na esquerda,
com sua perna ligeira,
deu outra e viu os bandidos
caindo tudo de esteira.

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Foi tanta cara quebrada
dos bandidos pelo chão
que causou até o riso
do medroso capitão,
Belmondo com sangue frio
entrou depressa em ação.

Ele pegou um dos cabras
numa das mãos e rodou,
depois jogou-se na parede,
este a cara arrebentou,
morreu berrando encolhido
quando seu crânio saltou.

Ficaram sete e Belmondo
deu num duas cutiladas,
esse caiu bem de frente
com três costelas quebradas,
a língua partida em duas
e as pernas arrebentadas.

Esse morreu logo após
os soquetes verdadeiros,
restavam para Belmondo
seis ferozes bandoleiros,
onde um deles era o chefe
dos oitenta cangaceiros.

Um sacudiu seu punhal
nos peitos do cabra forte,
Belmondo jogou-se ao chão
e deu seu grito de sorte,
mandando com um soquete
o cabra encontrar a morte.

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Os cinco cabras partiram
parecendo uns cães danados,
Belmondo se desviou,
dando dois socos bem dados
no primeiro e no segundo,
fazendo mais dois finados.

E pra não perder mais tempo
partiu os crânios de dois,
ficou somente o chefão,
Belmondo em forma se pôs
e disse: - Cabra, eu deixei
seu festival pra depois.

Parta pra mim, cangaceiro,
dê sua prova de macho,
pois eu pretendo deixá-lo
moído de cima abaixo,
com seus ossos reunidos
formando um bonito facho.

O cabra disse: - Eu não temo
você, nem suas tacadas,
vamos lutar corpo-a-corpo
no jogo das cutiladas,
das rasteiras e dos socos
e também das joelhadas.

Belmondo atacou primeiro
o bandido que era bom,
mesmo assim levou um soco
que mudou da voz o tom,
ficou vendo o Sete-Estrelo
e da musa santa, o som.

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Depois balançou os tímpanos
voltando a ficar normal
e disse: - Este seu soquete
na verdade foi legal,
mas receba o meu agora
que cheira a um funeral.

E logo atacou Belmondo
numa chave de pescoço,
Belmondo viu-se apertado
por esse gigante grosso,
como uma máquina, dessas
que separa osso do osso.

Mas Belmondo lentamente
sem perder seu sangue frio,
pôs as mãos sobre o cachaço
do cabra, com muito brio
e deu-lhe aquele balão
lento, suave e macio.

O bandido foi jogado
com cinco praças além,
bateu sobre uma parede,
caiu mole, igual xerém,
aí disse para Belmondo:
- Se brinquedo marca bem.

Mas receba como paga
estas duas caneladas,
Belmondo viu-se atirado
com três braças bem contadas,
mas levantou-se e mandou
no cabra duas tacadas.

----------------------------------30----------------------------------

O bandido estatelou-se,
mas jogou forte rasteira
que atirou Belmondo em cima
dos braços de uma cadeira,
a levando de arrastão
por quase essa sala inteira.

Belmondo deu no bandido
uma enorme cabeçada
que lhe acertou no estômago,
deixando a marca gravada,
o cabra caiu morrendo,
sem poder fazer mais nada.

Muito mal ainda disse:
- Belmondo, você venceu,
depois fechou os dois olhos
e sem palavras morreu,
foi então que o comandante
lá de onde estava se ergueu.

Nessa hora os três irmãos
no salão apareceram,
vendo o comandante vivo
a Belmondo agradeceram
e pra esse oficial
todo o caso esclareceram.

Este disse pra Belmondo:
- Então é você a fera
que toda a polícia teme
de maneira tão severa?
eu mesmo lhe perseguia,
sem saber você quem era.

----------------------------------31----------------------------------

No mundo não pode haver
outro homem tão valente,
você salvou minha vida
e desta tão boa gente,
destruindo um bando inteiro
tão forte e tão competente.

Desta forma eu lhe perdoo,
pois vi sua nobre ação,
vou fazer um relatório
ao chegar no batalhão,
o deixando livremente
morando aqui no sertão.

Você destruiu um bando
agora recém-criado,
ajudou nosso Governo,
por mim será justiçado,
pelos seus feitos de honra
merece ser perdoado.

Belmondo disse: - Obrigado,
depois ambos se abraçaram,
tinha amanhecido o dia,
os dois ali se juntaram
e a todos os que morreram
no pé de um monte enterraram.

Depois disto o comandante
voltou ao seu batalhão,
deixando Belmondo em paz,
com a recomendação
de não ser mais cangaceiro
e ficar lá no sertão.

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No outro dia Isabel
disse: - Belmondo querido,
você hoje é homem livre,
seu caso foi resolvido,
sem que haja sombra alguma
já pode ser meu marido.

Ele disse: - Sim querida,
de tudo eu fui perdoado,
assim caso com você,
a moça do meu agrado,
sem precisar de fugir
para qualquer outro Estado.

Vamos ficar aqui juntos
eu você e seus irmãos
e aplicar todo o dinheiro
que ganhei sujando as mãos
com quem vive na pobreza,
visto sermos bons cristãos.

Isabel sorrindo disse:
- Que lindo o seu pensamento!
você deu-me a maior prova
de não ser uma avarento
e desta forma os dois bravos
uniram-se em casamento.

Juntos os quatro ficaram
O Belmondo do fiel,
Seus cunhados lhe estimavam
isentos do seu papel
Lá ficou esse ex-bandido
Vivendo feliz e unido
A sua esposa Isabel.

FIM