domingo, 30 de outubro de 2016

O CARRILHÃO DO CASTELO


O Carrilhão do Castelo

O Carrilhão do Castelo

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Apresento nestes versos
um caso distinto e belo,
romance do alto teor,
com guerra, encanto e duelo,
contendo o soberbo título
“O Carrilhão do Castelo”

Este grande enredo data
dos tempos medievais,
que duques, barões e condes
tinham domínios legais
e comportavam-se como
uns verdadeiros chacais.

O mundo todo era um lugar logro
que pertencia aos reinantes,
aos grandes imperadores
e aos nobres mais importantes
que possuíam guerreiros
para seus ataques vibrantes.

Dentre toda essa nobreza
de reinantes violentos,
haviam os menos forçosos,
tementes, benevolentes,
que respeitavam dos outros
os rancores turbulentos.

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O caso que vou narrar
realmente aconteceu,
num país que pertencia
ao continente europeu,
era um bonito reinado
que já desapareceu.

O reinado se chamava:
Paraíso dos Gigantes,
o rei Ciro e Lana Blen
eram os seus dois reinantes,
dois soberanos perversos,
cruéis e repugnantes.

Esse rei vivia em guerras
com os outros soberanos,
abatia os outros monarcas
com seus guerreiros tiranos,
não respeitava aos colegas,
a todos causava danos.

Ele tinha uma filhinha
que se chamava Galbeza,
tão linda quanto uma santa,
defensora da pobreza,
todo o povo do reinado
amava a bela princesa.

Com o que seu pai fazia
a princesa discordava,
a rainha Lana Blen
com ela ficava brava,
porque só como o marido
a soberana pensava.

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O povo vivia em pânico
por causa das grosserias
que o rei Ciro praticava,
causando as desarmonias,
sangue, terror e desgraças
viam-se todos os dias.

De toda parte em geral
surgiam reclamações,
mas o rei não abrandava
nas suas más intenções,
nem atendia a pedidos
dali, nem de outras nações.

Todos se prejudicavam
com os açoites do rei
que abalavam a todo mundo
sem respeitar uma lei,
lei válida, só a sua,
só ele é quem tinha grei.

Muitas nações ofendidas
entravam com ele em guerras,
mas perdiam seus soldados,
seus poderes, suas terras,
seus vales, suas baixadas,
seus morros ou suas serras.

A rainha Lana Blen
era uma grande guerreira,
lutava junto ao marido
às vezes, como escudeira,
gostava de avistar sangue
correndo feito biqueira.

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O rei se orgulhava muito
da coragem da mulher,
dizia: - A minha rainha
tem um sagrado mister,
não nasceu para furar trono,
por não ser uma qualquer.

Corte e palácio, pra ela,
são princípios diminutos,
ela gosta é de matar
guerreiros fortes e brutos,
eu com ela do meu lado
redobro meus atributos.

Neste mundo eu só respeito
a ponta da sua espada,
igual só existe a minha,
as demais valem nada,
Oh! Lana! Sei que vieste
para mim como enviada.

Já Lana diziam assim:
- Oh! Ciro! Meu rei querido,
És o guerreiro mais forte
que no mundo foi nascido,
sinto orgulho de tu seres
meu defensor e marido.

Mas Galbeza, a princesinha,
orava a Deus por seus pais,
os tinha como dois monstros
terríveis, vis e brutais,
não como dois soberanos
das monarquias banais.

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Ela dizia: - Deus meu
dai-me resignação,
não posso amar aos meus pais,
mas tenho essa obrigação,
pois sou partícula deles
nesta nossa encarnação.

Fazei Deus com que meus pais
passem a ser bons humanos,
pois pelo que eles praticam
não passam de desumanos,
onde poderiam ser
dois queridos soberanos.

Eu sou moça rica e bela,
gozo todo acatamento,
mas do jeito que meu pai
se mostra ser violento,
príncipe algum chegará
pra pedir-me em casamento.

Pois meu pai, o vil dragão,
com suas mãos mataria
ao príncipe ou ao plebeu
que tivesse a ousadia
de pedir-me em casamento,
dobrando a minha agonia.

Ele só vive das guerras,
lutando pelas montanhas
com minha mãe do seu lado,
lhe acobertando as façanhas,
ambos já tem como prêmios
centenas de lutas ganhas.

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Não poderei ser feliz
com eles vivendo assim,
esta maneira de vida
terá que chegar ao fim,
olhai pra eles Senhor
e tendes pena de mim.

Dos olhinhos da princesa
lágrimas tristes jorravam,
enquanto os seus rijos pais
nas lutas continuavam,
aos soberanos vizinhos
sem piedade matavam.

Aos dois rijos soberanos
todos os reinantes temiam,
muitos reinos devastados
a eles já pertenciam,
desta forma seus domínios
constantemente cresciam.

Mas o mal nunca termina
da forma que principia,
meu avô por muitas vezes
brincando assim me dizia:
- Cada coisa tem seu dono,
cada noite tem seu dia.

Assim, de um dia para outro
surgiu um grande dragão
num monte desse reinado
e construiu um vulcão,
cujo vulcão sem demora
entrou em erupção.

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E começou a soltar lavas
por todos os quatro cantos
do reino, deixando o povo
pedindo a todos os santos
socorro e misericórdia,
nos mais dolorosos prantos.

O dragão sobrevoou
o reino com aspereza,
na dimensão do palácio
parou com toda afoiteza
e sugou com as narinas
a meiga e bela princesa.

O rei e a rainha Lana
achavam-se combatendo
uns fazendeiros no campo,
porém quando foram vendo
a destruição no reino,
voltaram logo correndo.

Tiveram logo a notícia
que a princesa da nação
foi puxada para o ar
por um terrível dragão,
eles acharam que aquilo
era uma pura invenção.

Porém não tiveram tempo
para tomar providência,
pois o vulcão aumentou
com assombrosa influência,
acabando do reinado
toda a sua resistência.

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Por toda parte se ouviam
os gritos dos habitantes,
as grandes lavas vulcânicas
cobriam campos distantes,
destruindo as plantações
do Reino dos Gigantes.

O rei viu-se apavorado
ouvindo as exclamações
que vinham de todo canto,
com seus gritos de aflições,
ele não sabia como
salvar as populações.

Ele gritava: - Isso é falso!
não há vulcão no reinado,
só pode ser um demônio
nessa coisa transformado,
nem existe esse dragão,
tudo é um plano preparado!

A rainha Lana Blen
empunhou a sua espada
e gritou: - Venha dragão!
Traga a minha filha amada,
pois não creio no poder
da sua força encantada.

Nesse momento o vulcão
como uma bomba explodiu,
o reinado com seu povo
de uma vez se consumiu,
foi a coisa mais terrível
que aqui na terra se viu.

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Todos os prédios ruíram,
todos os montes desceram,
os campos se incendiaram,
as pedras se derreteram,
rei, rainha e os habitantes
todos de uma vez morreram.

Os animais e as florestas
nas lavas se devoraram,
todos os rios se entupiram,
as montanhas desabaram,
os quatro cantos do reino
as labaredas lavaram.

 O reino se ardeu em fogo
durante cinco semanas,
morreram pessoas boas
junto às pessoas tiranas,
as lavas queimaram todas
como o fogo queima as canas.

Todo o reino ficou plano
por uma cinza coberto,
nem o vento se atrevia
a passar ali por perto,
era um segundo Saara
composto no seu deserto.

Mas de repente surgiu
uma coisa de espantar,
era um castelo no centro,
sinistro, espetacular,
contendo uma gruta enorme
em todo o seu circular.

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O círculo que formou-se
era fora do castelo,
distando umas trinta léguas,
deixando-o lá, paralelo,
ninguém jamais entraria
naquele mundão singelo.

A gruta em forma de círculo
tinha uma largura enorme,
com fundura sem limites,
como um abismo que dorme
nas profundezas do nada,
com seu formato disforme.

E de dentro dessa gruta
ficou saindo fumaça,
como um vulcão vivo, aceso,
que traz o povo em desgraça
ou mesmo o inferno ardente,
com toda a sua carcaça.

Para um ser chegar no castelo
teria de atravessar
aquela gruta do círculo,
de largura irregular
e uma fundura sem fim,
com um calor de abrasar.

E mais, aquela fumaça,
que muitos metros subia,
havia certos momentos
que essa gruta se entupia,
como quer fosse uma névoa
que dos espaços descia.

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Desta forma, ali tornou-se
um lugar repugnante,
porém coisa mais notável
e bem mais interessante
era o castelo no centro
deste círculo gigante.

Todo o castelo era preto
mostrando horrenda figura,
deveria medir bem
meia légua de altura,
com quase o mesmo nos cantos
ou melhor, na quadratura.

Tinha uma altura tão grande
que as nuvens lhe encobriam,
mas por impulso dos ventos
logo após lhe descobriam,
os habitantes de longe
esses movimentos viam.

Na torre desse castelo
existia um carrilhão
com quatro lados, mostrando
direção por direção,
Norte, Sul, Leste e Oeste,
com a maior perfeição.

Todas as horas constantes
esse carrilhão batia,
da primeira da manhã
até chegar o meio-dia
e da primeira da tarde
à meia-noite sombria.

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Nunca falhava na hora,
nem atrasava um minuto
ou melhor, nem um segundo,
com seu contar diminuto
era um relógio de classe,
único desse produto.

O som desse carrilhão
era como badaladas,
ouvia-se com cem léguas
o soar, com as pancadas
todas as populações
ficaram muito alarmadas.

Acima do carrilhão
formou-se um trono real
com uma jovem sentada
como um ser original,
olhando para o Nascente,
essa parte oriental.

À noite, se apresentava
virada para o Poente,
era vista iluminada
por um farol reluzente,
todos viam-na de longe
como coisa transparente.

Dela, como por magia,
o seu tamanho aumentava,
fosse de noite ou de dia
todo o povo lhe avistava,
meio-dia e meia-noite
ela uns versinhos cantava:

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- Quem me vê nestas alturas
não sinta medo ou surpresa,
também não sinta desgosto,
alegria, nem tristeza,
porque eu ainda sou
a princesinha Galbeza.

Eu não morri no vulcão,
antes fui arrebatada
por um dragão vil, tirano,
que fez toda essa cilada,
no fim deixou-me com vida,
mas nesta torre encantada.

Se aparecer um guerreiro
que tenha disposição
de chegar neste castelo
e combater o dragão,
caso vença-o ganhará
meu sublime coração.

Mas se não vencer na luta
ficará logo encantado
numa rocha do castelo,
viverá subjugado
por todo o resto dos tempos,
como um triste desgraçado.

Porém, vencendo ao dragão
ganhará os meus carinhos,
terá todo o meu amor,
com todos os meus beijinhos
e poderá conduzir-me
pelos seus longos caminhos.

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Meio-dia e à meia-noite
aquela visão cantava
as cinco estrofes seguidas,
todo o povo lhe escutava,
sua voz era tão alta
que muita gente endoidava.

Os anos foram passando
sem surgir esse guerreiro,
nem vento rompia o círculo
coberto do fumaceiro
para penetrar no castelo
do dragão vil e traiçoeiro.

Com a morte do rei Ciro
as guerras se exterminaram,
os pobres reis destronados
para os seus reinos voltaram,
no continente europeu
novas nações se criaram.

O círculo do castelo
com as fumaças constantes
eram sobre o território
do reino Paraíso dos Gigantes,
antes o reino de Ciro,
o rei dos extravagantes.

Já perto do fim do conto
eu darei explicação
como ficou esse reino
e se houve a libertação,
mas por enquanto ele fica
sob o poder do dragão.

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O Carrilhão do Castelo
com suas horas constantes
continuava a bater
suas pancadas vibrantes,
todas eram bem ouvidas
por todos os reinos distantes.

A voz triste da princesa
ao meio-dia entoava
e também à meia-noite,
quando as estrofes cantava
o tempo para outra fase
lentamente se passava.

Dois mil anos decorreram
nessa mesma cantilena,
a voz soltando o seu som,
o povo todo com pena
dizia: - Se eu fosse um deus
salvava aquela pequena.

Outo dizia: - Se eu fosse
um Hércules ou Sansão,
libertaria a princesa
dessa grande maldição
e derrubaria o pêndulo
do maldito carrilhão.

Com essas conversas tolas
os segundos decorriam,
os minutos se passavam,
as horas lentas corriam,
os dias precipitavam-se
e as semanas se sumiam.

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Os meses se consumiam,
os anos se evaporavam,
os séculos se cumpriam,
os milênios se juntavam
e os defensores da voz
no castelo não chegavam.

Será bom leitor que houve
um jeito para Galbeza?
Será que um bom guerreiro
teve mesmo essa afoiteza
de romper aquele círculo
para salvar a princesa?

Eu sei que o leitor deseja
ver alguém, nesta questão,
lutando pela princesa,
contra esse monstro dragão
vai surgir esse guerreiro
para dar satisfação.

Em um dos reinos criados
no continente europeu
houve um príncipe valente
que se chamava Pompeu,
filho do rei Juvenal,
do reino: Riso Bineu.

Esse príncipe valente
vivia mais de caçadas,
pelas matas mais sombrias
e grutas mais intrincadas,
gostava de combater
as coisas mais arriscadas.

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Pompeu não dava valor
a certas coisas reais
referente à corte e trono,
achando serem banais,
por muitas vezes causava
um certo desgosto aos pais.

Mas ele era brincalhão,
apesar de ser valente,
quando um dos seus pais sofria
por acha-lo indiferente,
ele brincava consigo
o deixando sorridente.

O príncipe era querido
dos pais e dos habitantes,
os pais diziam: - Filhinho,
seus gestos extravagantes
não mostram que você seja
o filho de dois reinantes.

Arranje, filho querido
uma donzela exemplar
que sirva pra sua esposa
e cuide de casar,
nós queremos dar-lhe o trono
pra podermos descansar.

Ele dizia: - Está bem,
mas não me venham com pressa,
um dia eu me casarei,
sei que a minha sorte é essa,
mas antes quero caçar
e matar gigante à beça.

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Pois eu gosto de caçar
nas grutas horripilantes,
adoro matar as feras
que são mais extravagantes
e sinto orgulho em bater
os mais terríveis gigantes.

Já matei vinte gigantes,
mais de duzentas serpentes,
matei diversos leões,
mais de cem tigres valentes,
lobos, ursos, leopardos,
já deixei muitos sem dentes.

Matei quatro crocodilos,
dezessete mastodontes,
cem panteras, dez hienas,
quatorze rinocerontes,
já fiz fugir um dragão
que tinha acesso em dois montes.

Por isto eu não posso ainda
parar com as aventuras,
quando eu encontrar um ser
que corte as minhas bravuras
ficarei na nossa corte,
são estas as minhas juras.

E se um dia eu encontrar
uma donzela em perigo,
lutarei para salvá-la
e se a tirar do castigo
a trarei pra nossa corte
para casar-se comigo.

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Mas recomendo uma coisa,
essa pode ser princesa,
condessa, mulher do povo
ou mesmo uma camponesa,
eu a trazendo será
a rainha com certeza.

Os pais acharam penoso,
porém ficaram calados,
queriam uma princesa
pra ver os dois coroados,
mas aceitaram do filho
os seus sonhos desejados.

Queriam ver sem demora
o príncipe sendo o rei,
era a vontade suprema
do povo e da sua grei,
essa obrigação já vinha
decretada pela lei.

Príncipe Pompeu um dia
entrou numa grande mata
predestinado a caçar,
adiante numa cascata
ele pôs-se admirando
aquela beleza exata.

Depois ele ouviu uns gritos
de maneira apavorante,
Pompeu atinando o rumo
seguiu e bem mais adiante
avistou uma velhinha
apanhando de um gigante.

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Pompeu gritou: - Monstro imundo!
quer matar uma velhinha?
se gosta de bater mesmo
enfrente esta espada minha,
homem que bate em mulher
é frouxo que só galinha.

O gigante então virou-se
e disse: - Tipinho imundo,
bato nela e em você
e se quer partir do mundo
venha a mim para morrer
antes que passe um segundo.

Pompeu disse: - Lá vai ferro,
se prepare e trinque os dentes,
o gigante solta a velha
e parte feito as serpentes,
o príncipe se firmou
nos seus dois pés resistentes.

E com três golpes somente
o gigante se acabou,
a velha tremendo toda
nos seus pés se ajoelhou
e disse a ele: - Deus salve
a quem hoje me salvou.

O príncipe disse a ela:
- Levante-se dos meus pés,
não gosto de quem se orgulha
exibindo os seus anéis,
somos iguais e por isto
não uso falsos papéis.

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A velhinha levantou-se
e disse: - Filho querido
você é o meu ser guerreiro,
já vi que Deus foi servido,
eu sou a Fada da Paz,
muito já tenho sofrido.

Faz dois mil anos que vivo
presa por esse gigante,
a nossa questão já vem
de tempo muito distante,
você vai saber de tudo
para sair triunfante.

Do gigante eu apanhava
três vezes por cada dia,
faz dois mil anos que apanho
sofrendo essa tirania,
mas hoje chegou-me a vez
de sair dessa agonia.

Estava escrito no livro
das entidades sagradas
que eu só me libertaria
dessas tiranas lapadas
quando surgisse um guerreiro
enviado pelas fadas.

Você venceu ao gigante,
da prisão me libertou,
toda a força que já tive
novamente me chegou,
agora eu sou quem já fui,
quem já fui agora sou.

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Por ordens das outras fadas
nós temos uma missão
de salvar uma princesa
do castelo de um dragão
que fica num grande círculo,
onde fora uma nação.

Cujo local já chamou-se:
Paraíso dos Gigantes,
o Dragão Rei das Serpentes
com modos extravagantes
matou o rei e a rainha,
com todos os seus habitantes.

Ele destruiu ao reino
com o seu poder singelo
e no local fez um círculo,
tendo no centro um castelo,
pôs na torre deste, a moça
que parece um anjo belo.

Na torre desse castelo
há um grande carrilhão,
que bate de hora em hora
como uma condenação,
só com o pêndulo deste
é que se abate o dragão.

Acima do carrilhão
vive a princesa num trono,
canta uns versos para o mundo
antes do seu abandono
e depois fica encantada,
como quem ferra no sono.

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Ela é filha do rei Ciro
e se chama de Galbeza,
o dragão matou todos,
mas reservou a princesa
para depois encantá-la
usando a sua vileza.

Para chegar no castelo
só vai se for pelo ar,
o círculo não permite
por ele ninguém passar,
por ser largo e muito fundo,
fumaçando sem parar.

Mas nós vamos ao castelo,
tudo já está preparado,
eu vou voando por cima,
você num cavalo alado,
desta maneira o dragão
se verá logo atacado.

Você não tema aos perigos,
que eu vou dando as instruções,
quando entrarmos no castelo
surgirão contradições,
mas venceremos a luta
no final das confusões.

O dragão sendo vencido
a jovem se desencanta,
você monta-a num cavalo
que logo ele se levanta,
mas não olhe para trás,
porque olhando se encanta.

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Quer enfrentar o dragão
ou fugir dessa aventura?
O príncipe disse: - Fada,
sou eu mesmo, a criatura
que a senhora procurava,
nunca temi rocha dura.

Logo a fada e o seu guerreiro
depressa se prepararam,
ela deu-lhe as instruções,
depois para o ar olharam
e dois cavalos alados
nesse momento chegaram.

Disse a fada: - Monte num...
que eu sigo mesmo voando,
o outro vai sem ninguém,
de lado lhe acompanhando,
para trazer a princesa
que vive tanto penando.

Pompeu montou no cavalo
que deu um relincho belo
e subiu para o espaço,
depois seguiu como um elo
com o outro acompanhando-o
na direção do castelo.

A fada seguiu por cima
como uma pluma no ar,
o príncipe não sabia
quanto tempo ia voar,
mas gostou da brincadeira
num voo espetacular.

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Com duas horas de voo,
no castelo eles chegaram,
numa varanda do mesmo
sem cerimônia pararam,
os dois cavalos alados
descansando ali ficaram.

Agora o leitor vai ver
os lances da grande luta
que Pompeu vai enfrentar
com a fera absoluta
e com os monstros gigantes
daquela armadilha bruta.

A fada logo invultou-se
para ajudar ao rapaz,
ele deixou os cavalos,
seus amiguinhos legais
e entrou de castelo adentro
fedendo a fumaça e gás.

Percorreu vários salões
tendo tamanhas surpresas,
porque só via brilhantes,
ouro e diversas grandezas,
ele nunca imaginara
que houvessem tantas riquezas.

A fada na sua mente
tocava, dando instrução,
dizia: - Tenha cuidado!
Em nada aqui ponha a mão,
prepare-se para os gigantes,
as serpentes e o dragão.

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Ele com cuidado imenso
olhava todos os lados,
de repente viu surgirem
quatro gigantes armados,
pareciam quatro vasos
daqueles encouraçados.

O príncipe ficou firme
empunhando a sua espada,
um dos gigantes lhe disse:
- Previna-se, camarada,
para enfrentar a nós quatro,
como início de zoada.

Pompeu gritou: - Então partam
os quatro de uma só vez,
o gigante disse: - Não!
a luta é com polidez,
você pra vencer os quatro
tem que antes vencer três.

Pompeu disse: - Então lá vai
a ponta deste meu ferro,
defenda-se porque eu
quando boto nunca erro,
nisto o primeiro gigante
soltou um tremendo berro.

Pois levara uma furada
que apontou no espinhaço,
caiu de costas morrendo,
virou-se logo em bagaço,
Pompeu gritou ao segundo:
- Parta pra ver seu fracasso!

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O gigante o enfrentou
armado com um cutelo,
descarregou-o sobre o príncipe
dizendo: - Tipo singelo!
Você é o primeiro homem
que pisou neste castelo!

O príncipe desviou-se
com bela demonstração,
o cutelo do gigante
quando bateu sobre o chão
quebrou-se em cinco pedaços,
que tiniram no salão.

Nessa hora, o carrilhão
anunciou meio-dia,
a voz da bela princesa
soltou sua melodia,
o príncipe ouviu os versos
com toda monotonia.

Ele disse em pensamento:
- Quando eu vencer aos gigantes,
às serpentes e ao dragão,
com os meus golpes vibrantes
quero ouvir da tua boca
tais versos insinuantes.

Logo o gigante se ergueu
pra pegar Pompeu de mãos,
ele pulou para um lado
e disse: - Venham fuãos
pra receber o batismo,
visto serem três pagãos.

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E mergulhou sua espada
no umbigo do segundo,
ele deu tremendo grito
e despediu-se do mundo,
o príncipe disse: - Parta
o terceiro vagabundo.

Logo o terceiro gigante
partiu com duas espadas
e sendo uma em cada mão,
ambas demais afiadas,
cortando em forma de cruz,
como navalhas rodadas.

Pompeu pôs o pensamento
na boa Fada da Paz,
naquilo uma luz queimou
as mãos do monstro voraz,
o gigante estatelou-se
quando caiu para trás.

Quando quis se levantar
foi furado na barriga,
todos os seus fatos rolaram
e ficaram vendo a briga,
o gigante esmoreceu
e morreu soltando figa.

O quarto gigante vendo
seu colega assim morrer,
gritou por santa canela
e foi tentando correr,
mas Pompeu lhe disse: - Pare!
e venha me combater.

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Por não haver outro jeito
o gigante o enfrentou,
foi furado nas canelas,
porém quando se abaixou
para tapar a ferida,
no peito o moço o cravou.

O gigante caiu morto
causando o maior estrondo,
mas foi mesmo que assanhar
o lar do rei marimbondo,
porque abriu-se um portão
mostrando um salão redondo.

No cujo salão redondo
havia trinta serpentes,
cada com vinte cabeças,
todas elas diferentes,
contendo cinco ou seis serras
dos mais afiados dentes.

Partiram todas de vez
para acabar com Pompeu,
o carrilhão nessa hora
uma da tarde bateu,
Pompeu pensou: - Estas bichas
irão saber quem sou eu.

Fez-se em sua forte espada
e furou logo uma delas,
as outras partiram fortes
com todas suas mazelas,
o príncipe preparou-se
e meteu seu ferro nelas.

----------------------------------30----------------------------------

As serpentes se enrolavam
dando tremendas dentadas,
mordiam-se umas às outras
lutando desesperadas,
o príncipe foi não foi
dava suas cutucadas.

A sala encheu-se de sangue,
sendo todo das serpentes,
elas mesmas se rasgavam,
mas com os seus próprios dentes
e mais, Pompeu lhes mandando
suas furadas potentes.

Os raios do Sol da tarde
faziam lindos espelhos
nos ladrilhos do salão
que se mostravam vermelhos,
o príncipe via sangue
já lhe chegando aos joelhos.

Às duas horas da tarde
bateram no carrilhão,
o príncipe viu o sangue
enchendo todo o salão,
ele ali pensou na fada
como sendo a salvação.

Naquilo surgem dois canos
com dois furos diferentes,
contendo pressão de ar,
estes canos excelentes
sugam todo aquele sangue
com todas suas serpentes.

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O príncipe viu-se só
com suas vestes molhadas
pelo sangue das serpentes
e as botas muito ensopadas,
ele sussurrou: - São provas
das minhas lutas pesadas.

Logo abriu-se outro portão
seguindo uma escadaria,
por ela Pompeu subiu,
visto que a nada temia,
foi sair noutro salão
que móvel nenhum havia.

O carrilhão tão falado
tocou as suas três horas,
enquanto Pompeu pensava
naquelas feras caiporas
de duas fortes pilastras
fez logo duas escoras.

Mas uma voz lhe gritou:
- Escora-te nos joelhos
e pede-me sem olhar
o perdão ou meus conselhos,
porque já vejo os teus olhos
lampejando de vermelhos.

O príncipe ergueu a vista
pra ver seu anfitrião,
sem dúvida alguma viu
a figura do dragão,
ele não surpreendeu-se
com a justa aparição.

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Pergunta o dragão: - És tu
que desde umas horas lutas
com meus melhores guerreiros
e vence-os de formas brutas?
Muito vem, gostei de ti,
tens artimanhas astutas.

Mas responde-me guerreiro:
O que pretendes de mim?
Disse o príncipe: - A princesa,
vou leva-la, digo sim,
quanto a você, numa luta
determinarei seu fim.

Nesta hora o carrilhão
bateu as quatro da tarde,
o dragão disse a Pompeu:
- Achas que sou um covarde
para entregar-te a princesa
e morrer fazendo alarde?

O príncipe disse: - Acho
e você é traiçoeiro,
transformar um reino assim
após ser seu carniceiro,
não é nenhum papel cívico,
você não foi cavalheiro.

E mais, deixar a princesa
daquela forma encantada,
você vai pagar bem caro
por toda essa trapalhada,
quando eu transformá-lo em renda
na ponta da minha espada.

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O dragão abriu as asas
e fechou-as novamente,
focou no famoso príncipe
seus dois olhos de serpente
e soltou por toda a sala
um terrível bafo quente.

O príncipe perguntou-lhe:
- Para que tais ameaças?
Eu sou guerreiro nas armas,,
não nos bafos, nem fumaças,
arme-se para juntarmos
as nossas duas carcaças.

O dragão disse: - Menino,
as portas estão abertas
se quiseres partir, partes,
se queres lutar, te acertas,
nisso o carrilhão bateu
as cinco da tarde, certa.

Disse o dragão: - Uma hora
nós temos para lutar,
pois quando baterem seis
eu procuro me encantar
e tu não tendo partido
terás que te liquidar.

Pois os piores perigos
na noite sobrevirão,
tu não poderás vencê-los
por causa da escuridão,
de formas que te aconselho:
Volta pra tua nação.

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O príncipe respondeu-lhe:
- Como o nosso tempo é pouco
eu vou começar primeiro
e cortá-lo feito um louco,
depois da sua rabada
vou deixar só o cotoco.

O dragão disse: - Está bem,
queres luta, eu também quero,
lembra-te do que te disse,
somente uma hora espero,
o príncipe disse: - Parta
que no aço eu lhe tempero.

O dragão jogou-lhe um fogo
que clareou no salão,
Pompeu abaixou-se rápido
e com seu aço na mão
partiu pra furar na goela
aquele feroz dragão.

Mas o dragão levantou-se
e quis trancá-lo nas asas,
Pompeu furou-o entre os olhos
que se achavam duas brasas,
o dragão silvou três vezes
e gritou: - Tu não me arrasas.

E bateu-lhe com o rabo
que foi tremenda a lapada,
Pompeu levou uma queda
que a cara ficou ralada,
embolou diversas vezes,
mas não soltou a espada.

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Os dois entraram na luta
rodando que só moendas,
o dragão se levantava
com suas garras horrendas
e o príncipe lhe mandava
espadadas estupendas.

Quando os golpes de Pompeu
no grande dragão batiam,
fogo azul, fogo vermelho
da sua espada saíam,
aquelas fortes faíscas
por todo o salão luziam.

O dragão dava rabadas
que pareciam rochedos
desabando serra abaixo
por sobre os grandes penedos,
o príncipe se livrava
daqueles lindos brinquedos.

Quando as asas do dragão
pelas paredes passavam,
cortes fundos de dois palmos
por todas elas deixavam,
os cascalhos dos zamboques
por todo o salão rolavam.

No príncipe aquelas asas
de forma alguma batiam,
pois o moço era ligeiro,
seus pulos lhe defendiam
e nessa tremenda luta
os minutos decorriam.

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Estava se aproximando
a hora do carrilhão
anunciar as seis horas,
para encantar-se o dragão,
sem o moço ter vencido
aquele horrendo bichão.

Naquilo a fada tocou
na mente do bom guerreiro
que subisse mais um lance,
o moço subiu ligeiro,
o dragão subiu atrás
com seu furor carniceiro.

Foram sair numa sala
onde o carrilhão se achava,
o seu pêndulo gigante
lentamente balançava,
quanto a hora das batidas,
devagar se aproximava.

O príncipe e o dragão
nova luta começaram,
tudo o que havia na sala
eles dois esbandalharam
e do grande carrilhão
sem sentir se aproximaram.

O pêndulo balançava
de maneira lentamente,
o príncipe gritou: - Fada
socorrei-me velozmente,
de repente a sua força
cresceu instantaneamente.

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Ele segurou o pêndulo
somente com uma mão
e atirou-o de encontro ao monstro
com a força de um canhão,
o qual estourou de vez
a cabeça do dragão.

Houve um gemido tão grande
que estremeceu o castelo,
o príncipe viu na hora
o dito trono singelo,
nele a princesa dormindo
com o seu sorriso belo.

Ele tocou-a nas faces,
ela se desencantou,
naquilo a Fada da Paz
pertinho deles chegou
e disse: - Vamos embora,
que o tempo já se esgotou.

Os dois cavalos alados
nesse momento chegaram,
o príncipe e a princesinha
nos dois logo se montaram,
no carrilhão do castelo
as seis horas ecoaram.

A fada disse aos cavalos:
- Leve-os na corte dos pais
do príncipe e disse a este:
- Parta sem olhar para trás,
amanhã eu chegarei
nos seus domínios reais.

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Com a princesa e o príncipe
os dois cavalos partiram
houve um estrondo tremendo,
todas as paredes ruíram,
o castelo e o seu círculo
para sempre se sumiram.

O dragão e os seus gigantes
foram para o Arderoz,
o local foi transformado
num vulcão muito feroz
que até hoje ainda existe,
deixando um país atroz.

Foi batizado por Etna,
essa praga desumana
e ficou eternamente
com sua fúria tirana
entrando em erupção,
numa parte Italiana.

Os dois cavalos alados
com os dois jovens voaram,
às oito e poucas da noite
lá no reinado chegaram,
na corte dos pais do príncipe
já sem perigo os deixaram.

Os pais do famoso príncipe
tiveram grande surpresa
em ver seu filho chegar
com uma linda princesa,
que fora desencantada
e se chamava Galbeza.

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Por ser de noite, o rapaz
pediu para descansar,
mandou três damas de honra
sua noiva agasalhar,
pois logo no outro dia
pretendia se casar.

Seus pais acharam de acordo
e todos se agasalharam,
às seis horas da manhã
todos lá se levantaram
e para a grande festança
logo mais se prepararam.

Minutos depois a fada
apareceu no salão
e contou perante todos
toda a história do dragão
e como esse antigo reino
transformou-se num vulcão.

Contou que os pais da princesa,
com todos os habitantes,
há dois mil anos atrás
tiveram mortes chocantes,
pelo terrível dragão,
com mortes extravagantes.

Falou sobre a princesinha
que cantava uma canção
pedindo para um guerreiro
tirá-la dessa aflição
e falou sobre as pancadas
que batia no carrilhão.

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Finalmente, toda a história
a boa fada contou
e disse para o casal:
- Adeus filhos que já vou,
casem e sejam felizes,
ao dizer isto voou.

Na tarde do mesmo dia
os dois jovens se casaram,
com as coroas reais
na hora se coroaram,
já feitos dois soberanos
conta do reino tomaram.

Eu participei da festa
na segunda encarnação,
só agora fiz o livro
porque tive a permissão,
a fada me autorizou
a falar desse dragão.

Eu conto histórias assim,
mas não sou um mentiroso,
conto porque vejo mesmo
com meu pensamento honroso,
pois ando por muitos cantos,
dirigido por Trancoso.

Justo leitor, não me acuse,
o que fiz é muito belo,
sofri cem noites seguidas
inventando este duelo,
levei Pompeu ao dragão,
versando dei extinção
Ao Carrilhão do Castelo.

FIM