segunda-feira, 31 de outubro de 2016

O FILHO DA LAVADEIRA


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Musas das altas camadas
dai-me a direção certeira
para eu versar uma história
verídica e verdadeira,
que traz o sublime título:
O FILHO DA LAVADEIRA.

Este caso foi passado
lá no Rio de Janeiro,
um jornalista contou-me
três partes do seu roteiro,
eu fiz a quarta e os versos
com cuidado verdadeiro.

O enredo é quase inédito,
com lances sentimentais,
que tiram uma mãe pobre
dos conceitos sociais,
a qual sofreu por seu filho,
só por amá-lo demais.

Num bairro pobre do Rio,
na década de quarenta,
residia um casal pobre:
Guilherme e Maria Benta,
ela sendo a lavadeira
que este trabalho apresenta.

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Guilherme era analfabeto,
sem nenhuma profissão,
trabalhava de biscates
ajudando em construção,
o pouco que ele ganhava
não dava para o seu pão.

Maria Benta, que era
uma esposa verdadeira,
para ajudar ao marido
a completar sua feira
trabalhava sol a sol
como mulher lavadeira.

O casal tinha um filhinho
que se chamava Miguel,
só com seis anos de idade
era o rico e doce mel
daquele casal honrado
tão perfeito e tão fiel.

Por esse belo filhinho
os dois muito se esforçavam,
comiam menos de um terço
do pouquinho que ganhavam,
o restante pra Miguel
com sacrifício guardavam.

Assim vivia o casal,
amando-se com carinho
cada um na sua luta,
sem pensar em desalinho,
mas o tesouro da casa
era Miguel, seu filhinho.

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Só que ninguém neste mundo
se lembra das tempestades,
seja pobre, seja rico,
seja das sociedades,
todos pensam no presente
com suas finalidades.

Um dia o pobre Guilherme
de um andaime desabou
caiu por cima de uns paus
e na queda se acabou,
Maria Benta, a viúva,
lavando roupa ficou.

Pra ela a situação
piorou cada vez mais,
sem ter mais o seu marido,
sem pecúlios principais,
sem pensão e sem emprego,
nem bens assistenciais.

Que sina a daquela pobre!
num tremendo desalinho,
sem casa para morar,
sem esposo e sem carinho,
como faria na vida
para criar seu filhinho?

Pois até mesmo o barraco
que morava era alugado,
não podia mais pagar
sem o salário minguado
que seu marido trazia
do seu trabalho pesado.

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O dono do seu barraco
vendo-a sem nenhuma escora
lhe disse: - Dona Maria
cuide logo em cair fora,
pois só quem trabalha e paga
é que aqui comigo mora.

Maria disse: - Mas eu
trabalho de lavadeira
e vou pagar meu barraco
da maneira que Deus queira,
o homem disse: - O seu ganho
não passa de uma porqueira.

Quero daqui pra amanhã
a casa desocupada,
senão jogo os cacos fora
sem lhe dar direito a nada,
ficando, eu mando a polícia
mostrar-lhe a porta adequada.

Disse assim e foi-se embora
deixando Maria em prantos,
pedindo a Nossa Senhora,
junto com todos os santos,
para encontrar um repouso
fora daqueles recantos.

Depois a pobre saiu
peregrinando à procura
de um barraquinho qualquer,
mas aquela criatura
estava predestinada
a sofrer essa amargura.

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Um lugar para ficar
a pobre não encontrou,
no outro dia o patrão
fora os seus cacos jogou,
com seu filhinho nos braços
na rua a pobre ficou.

Começou para essa pobre
um sofrimento sombrio,
ela pra poder salvar-se
do sol, da chuva e do frio,
foi morar sob umas rochas
perto da beira de um rio.

Era uma espécie de furna,
ela lá pôs seus caquinhos,
instalou-se com Miguel,
o dono dos seus carinhos
e continuou lavando
as roupas para os vizinhos.

Com o pouco que ganhava
comprava seus alimentos
e o leite do seu filhinho,
passando mil sofrimentos,
mas lá do Alto o Bom Deus
olhava os seus movimentos.

As rochas ou mesmo a furna
onde Maria morava
eram pertinho do rio
que as roupas ela lavava,
de forma que o seu filhinho
brincando só lá ficava.

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Mas aproximou-se o tempo
do garotinho estudar,
Maria se viu forçada
a todo dia o levar,
e com três horas depois
sair para lhe buscar.

Com isto encurtou o tempo
do trabalho de Maria,
pra lavar as roupas todas
a coitada não vencia,
desta maneira perdeu
metade da freguesia.

O seu pão diminuiu,
mas as passadas cresceram,
mesmo assim ela enfrentou,
logo os anos decorreram,
Maria e o seu filhinho
pela fome não morreram.

Miguel já com doze anos
era um bonito menino,
parecia um baronete
vindo do mundo grã-fino,
ninguém diria que ele
era quase um peregrino.

Ele não puxou em nada
a bondade dos seus pais,
era estúpido, ranzinza,
frio nos seus ideais,
e para completar seu dote
era orgulhoso demais.

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Odiava a mãe em tudo
por causa da profissão,
dizia: - Deixe esta vida,
procure outra remissão,
ela dizia: - Meu filho
com isto eu lhe dou o pão.

Ele dizia: - Que nada!
Pão traz fezes pra amanhã,
abandone esta desgraça,
isto é vida pra Satã,
quem vive de lavar roupa
não possui a mente sã.

Ela dizia: - Filhinho,
desde que seu pai morreu
que com lavagem de roupa
sustento ao estudo seu,
com roupa, alimento, estudo
e também ao gasto meu.

Não censure a sua mãe
que só nasceu pra sofrer,
ele lhe disse: - A senhora
não sabe o que é viver,
mora debaixo das pedras
sem ter medo de morrer.

Cuide em sair deste inferno
que serve para albatroz,
cascavel, sapo, morcego
ou qualquer vírus feroz,
se estas pedras desabarem
nada sobrará de nós.

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A mãe disse: - Nestas pedras
eu sem conforto cheguei
e nelas fiz minha casa,
foi nelas que lhe criei,
eu tenho-as por santuário,
não lhas abandonarei.

Miguel disse à sua mãe:
- Eu sempre amei a senhora,
mas passei a lhe odiar
por seu destino caipora,
se não sair deste inferno
eu a deixo e vou embora.

Ela disse: - Por Jesus,
não faça uma coisa desta!
Não fuja da sua mãe
tão sofredora e modesta,
pois você me abandonando
para mim nada mais resta.

Miguel empurrou a mãe
e deu-lhe ainda dois murros,
ela com a dor ferina
soltou desmedidos urros,
ele saiu fumaçando
e dando muitos esturros.

Nesse tempo ele deixava
os seus estudos primários,
passava para outros graus,
como sendo: Os secundários,
brevemente ocuparia
bancos universitários.

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Mas da sua mãe querida
ele sentia vergonha,
só ia em casa comer,
a pobre fraca e tristonha
abraçava-o soluçando,
como um preso quando sonha.

Ele depois que comia
dizia: - Quero dinheiro,
o colégio fica longe,
qualquer um meu companheiro
que me ver seguindo a pé,
me julga ser um lixeiro.

Que vergonha! Um estudante
que pretende ser doutor,
morar por baixo das pedras
como o sapo ou o condor,
eu nunca digo onde moro
pra não morrer de pavor.

Deus me livre de falar
da senhora aos meus colegas,
nem também onde é que moro,
pois sofreria as refregas
da vaia de todos eles
e das garotas piegas.

Todos pensam que sou filho
de uma viúva bastarda,
fazendeira aqui no Rio,
e que não me falta nada,
eu falo assim para os colegas
e pra minha namorada.

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Pois há dias que namoro
uma bonita moça,
de um fazendeiro paulista
ela é a única filhinha,
pra minha satisfação
estuda na classe minha.

Não vou perder esse peixe,
Oh! Que garota bela!
Quando eu formar-me doutor
falarei com os pais dela,
sem pabulagem nenhuma
eu me casarei com ela.

A pobre velha lhe dava
seu derradeiro tostão
e dizia: - Vá filhinho!
Corda do meu coração,
quando você se formar
tira-me desta aflição.

Os anos foram seguindo
com Miguel chegando aos gritos,
queria muito dinheiro
para os seus livros restritos,
a mãe só fazia olhá-lo
com seus olhinhos aflitos.

Pois Miguel a essa altura
já estava na Faculdade,
estudava medicina
com grande capacidade
e precisava de dinheiro
pra ser doutor de verdade.

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Ele já era um rapaz
muito belo e sedutor,
todas as suas colegas
brigavam por seu amor,
mas ele só via uma,
sua sublimada flor.

Era Jacira, a filhinha
do fazendeiro paulista,
desde os doze anos de idade
que nela ele pôs a vista
e para ser sua esposa
só havia ela na lista.

Porém ela não sabia
da pobreza de Miguel,
ele temia em que ela
invertesse o seu papel
se descobrisse ele pobre,
essa sina tão cruel.

Ele disse a sua mãe:
- Não surja entre meus amigos,
se minha amada Jacira
souber, me dará castigos
e todos os meus colegas
tornar-se-ão inimigos.

Todos pensam que sou rico,
filho de uma fazendeira,
já quiseram visita-la,
eu levei na brincadeira,
Ora! Não há tal fazenda,
por que vou fazer besteira?

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Mas se a senhora contar
a qualquer dos meus colegas,
haverá grande desgraça,
no fim ver-me-ei às cegas,
mas a senhora é quem vai
passar por todas as refregas.

Pois eu lhe mato de pau
do jeito que mato um cão
e corto o seu corpo em cruz,
deixo os pedaços do chão
para os urubus comerem,
como alimento ou ração.

E veja se tem dinheiro
que não posso andar a pé,
a pobrezinha não tinha
nem pra comprar um café,
o miserável com raiva
deu-lhe um grande pontapé.

A pobre velha estendeu-se
dando dois tremendos ais,
Miguel tocou nos seus pulsos,
sentiu-os bastante anormais,
ele temendo o pior
partiu pra não voltar mais.

Ele estudava de noite,
tinha livre todo o dia,
por isto arranjou trabalho
em uma sorveteria
distante da Faculdade,
que o grupo não conhecia.

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Não procurou nem saber
se a mãe era viva ou morta,
continuou seus estudos
dizendo: - O que a mim importa
é formar-me em medicina,
do meu mundo a santa porta.

Quando eu for mesmo doutor
o mundo fica aos meus pés,
namoradas surgem uma,
duas, quatro, cinco ou dez,
o que vale é o meu diploma
junto ao grau dos meus anéis.

Mas eu depois de formado
contarei tudo a Jacira,
direi que nunca fui rico,
o que disse foi mentira,
ela se tiver-me amor
cada vez mais me admira.

Eu lhe direi que sou órfão
de pai, de mão e de irmãos
e peço-a em casamento
para unirmos nossas mãos
como marido e mulher
e verdadeiros cristãos.

Se ela de gosto aceitar-me
será logo a minha esposa,
não me aceitando, o romance
mergulhará numa lousa,
outra casará comigo,
que dará na mesma coisa.

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Desta maneira Miguel
conseguiu em se formar,
Jacira também formou-se,
ele então foi visitar
a fazenda dos pais dela,
um paraíso sem par.

Era um coisa tão bela
como os parques importantes,
com pecuária e plantios,
muitos campos verdejantes,
um paraíso na terra
dos raros e delirantes.

Os pais da bela Jacira
gostaram bem de Miguel,
acharam-no ambicioso,
muito constante e fiel,
capaz de desempenhar
qualquer brilhante papel.

De formas que na fazenda
ele foi bem acolhido,
os pais viram que Jacira
o queria por marido,
não foi feita objeção
nesse prendado sentido.

Jacira dissera aos pais
que ele era um fazendeiro
do belo estado do Rio
e também tinha dinheiro,
além de tudo era um médico
e seu melhor companheiro.

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Miguel ficou na fazenda
gozando bem a vontade,
ele esperava ansioso
ter uma oportunidade
de se afastar com Jacira
para contar-lhe a verdade.

Até que um certo dia
ela mesma o convidou
para olhar umas cascatas,
ele então se aproveitou
e quando chegou nas mesmas
seu segredo revelou.

Só não falou sobre a mãe
que deixou soltando os ais,
disse apenas que era órfão,
não tinha irmãos e nem pais,
o que tinha era o diploma,
mocidade e anda mais.

Depois disse claramente
pra Jacira nessa hora:
- Se quiser ser minha esposa
por favor, decida agora,
não querendo, dê-me adeus,
que daqui eu vou-me embora.

Jacira disse a Miguel:
- Você causou-me surpresa,
jamais eu imaginei
vê-lo assim, sem ter riqueza,
mas admiro-o demais
devido a sua franqueza.

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Eu sonhei desde menina
em ser sua esposa amada,
nunca namorei com outro,
sempre em si fiquei vidrada,
por isto digo-lhe agora:
- Riqueza não vale nada.

Eu quero ser sua esposa,
com dinheiro ou sem dinheiro,
vá pedir-me hoje aos meus pais,
mostre ser bom cavalheiro,
demonstre-lhes que brinquei
chamando-o de fazendeiro.

Conte-lhes toda a verdade
que eles são maravilhosos
e sabendo que lhe quero
ficarão mais orgulhosos
de você, porque odeiam
a todos os mentirosos.

Miguel sentiu tanto orgulho
que seus dois olhos brilharam,
ali perante as cascatas
os dois jovens se abraçaram,
já quase ao morrer do dia
para a vivenda voltaram.

Os velhos bastante alegres
aos dois jovens receberam,
que eles queriam falar-lhes
na hora compreenderam
e para um bom reservado
os quatro se recolheram.

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O velho pai de Jacira
fica ao lado da esposa
e diz com desembaraço:
- Miguel Fernandes de Souza
nós achamos que você
nos quer dizer uma coisa.

Miguel lhe disse: - É verdade,
sua frase me admira
e como um pobre doutor
que não gosta de mentira,
eu peço-lhe em casamento
a sua filha Jacira.

De bens possuo meu diploma,
coragem e mocidade,
sou órfão, nada possuo,
exceto a grande amizade
que Jacira me dedica
desde a infantilidade.

O velho então levantou-se
e ficou firme nos pés,
a velha também ergueu-se
com gestos calmos, fiéis,
nesse ambiente brilhavam
as pedras dos seus anéis.

O velho disse a Miguel,
calmo e muito sorridente:
- Você Miguel, demonstrou
em tudo ser competente,
saiba que darei a vida
por um homem que não mente.

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Jacira lhe apresentou
como sendo um fazendeiro,
filho de viúva rica
lá no Rio de Janeiro,
mas Jacira pra viver
não precisa de dinheiro.

Ela talvez quis testá-lo
ou disse por brincadeira,
você sendo um rapaz limpo
não caiu nessa leseira
de querer passar por rico,
porque de fato é sujeira.

Eu noto que você é
um rapaz ambicioso,
querendo enfrentar a vida
de modo justo e honroso,
também noto em seu semblante
o gesto de um orgulhoso.

Ser orgulhoso é ser nobre,
não é falta, nem defeito,
desta maneira você
provou ser um bom sujeito,
eu aceito-o por meu genro
e fico bem satisfeito.

A partir deste momento
vamos tratar dos papéis,
já pode ficar conosco,
pois somos todos fiéis,
você não possui parentes,
não tem que arredar os pés.

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Desta maneira, os dois jovens
com uns dias se casaram,
os velhos deram-lhes tudo,
depois disto viajaram
pra dar uma volta ao mundo,
mas da mesma não voltaram.

Porque foram vitimados
num desastre aviatório,
deixando para os dois jovens
um patrimônio notório,
Miguel se viu na riqueza,
seu sonho não ilusório.

Em Campinas, de São Paulo,
essa fazenda ficava,
somente sete quilômetros
para a cidade distava,
que fazenda! Que colosso!
Outro igual não se avistava.

Na cidade de Campinas
Miguel fez um hospital,
imitando aqueles grandes
do centro da Capital,
gastou nessa grande obra
uma soma colossal.

Aquele hospital de luxo
ele fez por vaidade,
pôs uma equipe perfeita
pra qualquer necessidade,
mas só se internava ali
quem podia de verdade.

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Os preços para os pacientes
eram demais extorsivos,
Miguel não ouvia súplicas,
protestos, nem rogativos,
entrava lá quem pagasse
os cruzeiros decisivos.

Desta maneira Miguel
resolveu todos os seus sonhos,
casou com quem desejava,
não viu momentos tristonhos,
gozou todo o esplendor
dos horizontes risonhos.

Na fazenda ele implantou
um regime de dureza,
proibiu a dar-se esmola
com a maior avareza,
tornou-se um grande avarento
perseguidor da pobreza.

Comprou dois cães alemães
importados de encomenda,
treino-os para estraçalhar
de uma maneira estupenda
a quem viesse pedir
esmola em sua fazenda.

Jacira não disse nada,
achou que ele estava certo,
pra ela aquele marido
era um céu risonho e aberto,
tudo o que ela desejava
era dele achar-se perto.

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Miguel no seu apogeu
nem por sonho se lembrava
que já teve uma mãezinha
que tanto a ele adorava,
só naquele patrimônio
era que o doutor pensava.

Enquanto ele goza a vida
e mais a mais se conforta,
eu vou voltar para o Rio,
coisa que ao leitor importa,
para falar na mãezinha
que ele deixou quase morta.

Todos sabem que Miguel
deixou a mãe dando ais
quando deu-lhe o pontapé
com modos rijos, brutais
e partiu sem socorrê-la
para nunca voltar mais.

Quando a pobre melhorou
não viu mais o seu filhinho,
ela saiu se arrastando
até que viu um vizinho
que deu-lhe um pouco de chá
de quixaba bem quentinho.

Ela melhorou um pouco
daquela tensão tão quente,
mas a partir desse dia
tornou-se fraca e doente,
sentia a falta do filho
como uma coceira ardente.

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Foi demais adoecendo
pelo cansaço e saudade
e também pela velhice
que chegava sem maldade,
ela se viu na miséria
com toda a dor da verdade.

A pobre Maria Benta
não pôde mais lavar roupa,
a freguesia afastou-se,
a forme deu uma roupa,
sua boca nunca mais
viu uma colher de sopa.

Ela vendo-se perdida
como um carretel que rola,
com um pouco de sisal
fabricou uma sacola
e pra não morrer de fome
começou pedindo esmola.

Seu estado de saúde
piorava mais e mais,
ela pedia as esmolas
pelas ruas principais
e voltava para as rochas
em prantos sentimentais.

Depois onde ela morava
foi feito um melhoramento,
demoliram suas rochas,
seu reino, seu aposento,
ela ficou hospedada
na moradia do vento.

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Tudo para ela acabou-se,
filho, morada e saúde,
começou a peregrinar
dizendo: - O Bom Deus me ajude,
vou morrer no abandono,
visto que viver não pude.

Maria peregrinando
deixa o Rio de Janeiro,
segue sem nenhum destino
por um caminho incerteiro,
sempre descansando à noite
num monte ou num tabuleiro.

Nessa caminhada incerta
muitos anos se passaram,
seus males não decresceram
e nem também aumentaram,
ela comia de esmolas,
isto nunca lhe negaram.

Ela não sabia aonde
seus pés estavam pisando,
sabia que para um lado
sempre estava caminhando,
estava tão velha e fraca
de deixar muitos chorando.

Um dia ela pôde ver
uma bonita fazenda,
não sabia de quem era
a tão sublimada prenda,
contendo uma mansão bela
no centro como vivenda.

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Ela avistando a vivenda
defronte dela parou,
com seus olhinhos chorosos
muito tempo lhe fitou
e como quem teve um sonho
riu e depois suspirou.

Naquilo um velho vigia
surgiu bem pertinho dela
e disse: - Fuja daqui,
não olhe esta prenda bela,
que nosso doutor Miguel
mata a quem olhar pra ela.

Maria Benta lhe disse:
- Eu só pretendo uma esmola,
diga ao seu doutor que mande
algo pra minha sacola,
que estou tremendo de fome,
sem isto o meu corpo rola.

O vigia disse: - Parta
e peça adiante os seus pães,
aqui ninguém dá esmolas,
suas palavras são vãs,
se ficar, nosso doutor
joga-lhe em cima os seus cães.

Maria disse ao vigia:
- Mas talvez esse doutor
tenha compaixão de mim,
vá pedir-lhe por favor
pra ele dar-me uma esmola
em nome do Criador.

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O doutor Miguel ouvindo
da velha a grande insistência,
sentiu um ódio profundo
e faltou-lhe a paciência,
resolveu com seu orgulho
tomar rija providência.

Bem, leitor, Maria estava
nas terras do próprio filho,
ela andou por vários anos
seguindo no justo trilho,
levada pelo destino
e disto eu me maravilho.

Será que o doutor Miguel
vai jogar seus dois cães nela?
Será que ele a reconhece
e pede perdão a ela?
Será que chegou o dia
da felicidade dela?

Maria sendo uma mártir
como o são diversas mães,
continuou insistindo,
a fim de ganhar uns pães,
o doutor indignado
estumou nela os seus cães.

As duas feras bravias
contra Maria avançaram,
morderam-lhe o corpo todo
e sobre o chão a jogaram,
depois com presas ferozes
ao seu corpo estraçalharam.

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O velho vigia vendo
aquilo, ficou com pena
e disse para o doutor:
- Não gostei da triste cena!
O senhor com seus cachorros
é pior que uma hiena.

Adeus, bote outro vigia,
sinto nojo do senhor,
mal empregado o anel
que usa como doutor,
passe bem, coma estes restos,
que vão lhe dar bom sabor.

Ele disse isto e partiu
com a mente apreensiva,
Miguel sentiu uma dor
aguda e bem positiva,
depois olhou para e velha,
notou que inda estava viva.

Mas seus órgãos se encontravam
seriamente esbandalhados,
tripas rolando no chão,
ossos quase separados,
sangue jorrando das carnes
e braços quase apartados.

Ele chamou dois vaqueiros
e com eles colocou
esses restos no seu carro,
para seu hospital rumou,
como a cidade era perto
em dez minutos chegou.

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Isso era pela manhã,
ele ali com toda urgência
reuniu-se à sua equipe,
com precisão e carência,
para trabalhar com ele
neste caso de emergência.

Na mesa de cirurgia
essa equipe trabalhou
a manhã e toda a tarde,
carne por carne emendou,
todos os recursos que havia
doutor Miguel aplicou.

Muitas transfusões de sangue
na velhinha foram dadas,
foram dados muitos pontos
nas carnes estraçalhadas,
voltaram pra seus lugares
todas as partes rasgadas.

A operação foi perfeita,
tudo sem erro ocorreu,
até o fim do trabalho
a velhinha não morreu,
vejamos dali pra frente
o que foi que aconteceu.

Chegara a noite e o doutor
Miguel foi dormir em casa,
deixou a equipe médica,
o seu peito ardia em brasa,
chegara-lhe um sentimento
desses que ou mata ou arrasa.

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Quando deitou-se dormiu,
mas teve um sonho agitado,
viu a pedinte chegar
com todo o corpo enfaixado,
ficar em pé, junto dele
e falar-lhe em tom cansado.

- Miguel, eu sou tua mãe
e vou partir deste mundo,
graças a ti, por usares
de um proceder tão imundo,
tua riqueza arrastou-te
para um abismo profundo.

Miguel, pelo pobre leite
que tantas vezes te dei
com meus seios ressecados,
pela fome que passei,
tens compaixão desta mãe
que morre, porque não sei.

Lembra-te que lavei roupa
pra dar-te o pão e o estudo,
sou hoje uma padecente
e tu um doutor graúdo,
ganhei dor e sofrimento,
porém tu ganhaste tudo.

Miguel! Meu filho querido
por que tu me abandonaste?
E por que a teus dois cães
de encontro a mim estumaste?
És meu assassino, filho,
com teus gritos me mataste.

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Miguel despertou do sonho
com a mente dolorida,
disse consigo: - Meu Deus,
o que há com minha vida?
Será que eu dei mesmo a morte
à minha mamãe querida?

Será mesmo aquela pobre
a mulher que deu-me a luz?
E eu mandei meus dois cachorros
transformar seu sangue em pus?
Oh! Deus! Salvai sua vida,
tirai de mim esta cruz.

Sofrendo como ele estava
não pensou mais em ninguém,
seguiu para o hospital
alta noite sem desdém,
pois pela primeira vez
queria fazer o bem.

Sua presença assustou
a todos os enfermeiros
e aos médicos de plantão
que eram seus companheiros
e também seus assistentes,
corretos e verdadeiros.

Ele disse: - A paciente
que ontem foi operada,
eu é que quero assisti-la,
ninguém ali disse nada,
ela era o chefe supremo
como uma lei decretada.

----------------------------------30----------------------------------

No quarto da paciente
o doutor Miguel ficou,
olhava-a com mil carinhos,
com devoção lhe auscultou
e viu que ela estava viva,
isto muito lhe alegrou.

Os enfermeiros e médicos
ficaram desconfiados,
assim todos os corredores
ficaram movimentados,
pois vigiavam Miguel
por serem bons empregados.

Já quase de manhãzinha
Miguel ouviu sem pantim
a doente delirando,
como quem chegava ao fim
num desabafo anestésico,
gemendo e dizendo assim:

- Sou uma pobre pedinte
que traga o mais puro fel,
sinto em morrer desprezada
de uma forma tão cruel,
só por não ter a presença
do meu filhinho Miguel.

Se Miguel não tivesse fugido
para outras terras distantes,
dar-me-ia hoje o socorro
com suas mãos tão brilhantes,
tirando-me destas dores
tão fortes e cruciantes.

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Eu sei que ele está formado
no ramo da medicina,
sem saber que sua mãe
num leito a vida termina,
por desígnio da sorte
ou tempestades da sina.

Tu me deixaste, Miguel,
por isto estou me ultimando,
vou para o Reino de Deus,
onde Ele está me esperando,
mas como mãe caprichosa
continuarei te amando.

Miguel sentiu nessa hora
a dor pura da verdade,
aquela era a sua mãe
que deu-lhe a felicidade
e recebera de si
a mais bruta crueldade.

Ele deu enorme grito
e no solo se estendeu,
um médico, seu amigo,
na hora lhe socorreu,
num grande estado de choque
Miguel logo se envolveu.

Formou-se uma junta médica
de seis especialistas,
um em cardiologia,
dois lentes patologistas,
outro em neuroses e nervos
e mais dois como analistas.

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Foram feitos para Miguel
análises e os exames
com dedicação suprema,
eram demais os vexames,
houve até reunião
com debates e certames.

Mas nada ali fez Miguel
sair da sua apatia,
ficou com olhos abertos,
não fechava-os, nem dormia,
não soltava uma palavra,
nem também nada comia.

Assim não fora encontrada
nenhuma conclusão certa,
ficou o grande hospital
em um estado de alerta,
naquilo um dos seis doutores
fez a justa descoberta.

O grande neurologista
foi mais cônscio e competente,
disse: - O estado de choque
do nosso chefe doente,
surgiu com um grande trauma,
devido uma paciente.

Lembrem-se da paciente
que sofreu a cirurgia
que começou ontem cedo
e demorou todo o dia,
Miguel sofreu este choque
no quanto ela dormia.

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E foi quando a anestesia
da doente foi passando,
alguma coisa ela disse,
com certeza delirando,
Miguel que a observava
pela dor foi desmaiando.

Vejam que às tantas da noite
Miguel saiu do seu lar
para assistir a doente,
esta é mesmo de endoidar,
existe um “que” nesta velha
que não consigo explicar.

Por dois cães do nosso chefe
ela fora estraçalhada,
ele trouxe-a e operou-a
com sua equipe adequada,
acho que já fez demais
para quem não pagou nada.

Há um mistério no caso,
tenho a conclusão fiel,
a doente delirando
disse uma coisa cruel
que colocou neuropata
em nosso doutor Miguel.

Se a paciente escapar
o Miguel se recupera,
porém se ela falecer
nada mais dele se espera,
ficará de olhos vidrados
olhando a sua quimera.

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Vamos tratar da doente
usando todos os cuidados,
dela depende Miguel
com todos seus os seus empregados,
seus amigos, seus negócios
e também seus internados.

As atenções se voltaram
para a velhinha doente,
todos lá no hospital
cuidavam da paciente,
desta forma ela voltou
do seu mundo inconsciente.

O médico de Miguel,
que fez sua descoberta,
pulou de tanta alegria
e disse: - Ele se liberta,
vendo esta velha falar
ele se cura na certa.

Ele falou pra velhinha
com toda delicadeza:
- Vou trazer Miguel aqui,
fale calma e com firmeza,
mas tenha muito cuidado
pra não morrer de surpresa.

Ele está inconsciente,
mas vai se recuperar,
porque ele a vendo salva
com certeza vai falar,
não fique preocupada
com o que ele revelar.

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Assim Miguel foi levado
para o quarto da velhinha,
ela estava no seu leito,
remendada, coitadinha!
Porém fora de perigo
daquela operaçãozinha.

Miguel inda se encontrava
com os seus olhos vidrados,
o doutor falou pra ele:
- Devido seus bons cuidados
a paciente salvou-se
dos arranhões condenados.

Miguel desprendeu seus olhos
da sua triste hipnose,
seus lábios se descerraram,
sumiu-se a sua neurose,
transformou-se de repente
como uma metamorfose.

Ele sentou-se no leito
e fitou a paciente,
depois lhe disse: - A senhora
me conhece, certamente,
ela disse: - Não doutor,
nunca o vi na minha frente.

Ele lhe disse: - A senhora
delirando me chamou
de Miguel, o seu filhinho,
é verdade o que falou?
A senhora tem um filho
que antes lhe abandonou?

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Ela disse: - Sim, doutor,
mas talvez seja leseira
eu vou contar porque ele
deixou-me na choradeira,
porque não queria ser:
O FILHO DA LAVADEIRA.

Miguel pergunta: - Onde foi
que nasceu esse grosseiro?
Ela disse: - Num barraco
lá no Rio de Janeiro,
foi o meu primeiro filho
e também o derradeiro.

Miguel torna a perguntar-lhe:
- E como ele se chamava?
Ela lhe disse: - Miguel
e a medicina estudava,
batia-me por dinheiro
pensando que eu lhe negava.

Miguel ergueu-se no leito
e disse: - Mamãe querida
quer perdoar um malvado
que quase tirou-lhe a vida?
Eu sou Miguel, seu amado filho!
A pantera embrutecida.

Quer perdoar quem tratou-a
com empurrões e pezadas
e abandonou-a nas margens
das mais penosas estradas?
Inda por cima, estumando-lhe
as suas feras malvadas?

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A velha disse: - Filhinho,
eu nunca lhe condenei,
para dar-lhe o pão e os estudos
toda a vida me esforcei,
com a trouxa na cabeça
muitas passadas já dei.

Quando você me deixou
eu fiquei muito doente,
não pude mais trabalhar,
fiquei sem nenhum cliente,
o jeito foi ingressar
na vida de penitente.

Peregrinei feito louca
sem parada, nem destino,
viajei diversos anos
nas margens do desatino,
cheguei perto de você
trazida por Deus Divino.

Nada tenho a perdoá-lo,
são estes os atos meus,
sou feliz, porque já vejo
ternura nos olhos seus,
agora posso morrer
dando graças ao meu Deus.

Miguel lhe disse: - A senhora
desta vez não vai morrer,
seu perigo já passou,
vai se restabelecer
para uma vida de rosas
depois de velha viver.

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Ela lhe disse: - Miguel,
se você deseja assim
eu vou viver pra você,
até Deus chamar a mim,
mesmo sendo uma aleijada
não acharei nada ruim.

Eu fiquei toda estragada
vendo a morte positiva,
mas devido a cirurgia
tão perfeita e decisiva,
tornei-me uma remendada,
mas como vê, estou viva.

Eu estando ao seu lado
esqueço meus sofrimentos,
faço de conta que nunca
sofri grandes ferimentos,
serei uma mãe feliz
em todos os meus momentos.

Miguel tentou abraçá-la,
seu médico não deixou
e disse: - Ela pode agitar-se,
Miguel calmo concordou,
mas deu-lhe um beijo da fronte
e dali se retirou.

Logo da sua neurose
ficou restabelecido,
tudo voltou ao normal,
o tristonho acontecido
fez Miguel recuperar
a mãe que tinha perdido.

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Dias depois, sua mãe
saiu do grande hospital
com cicatrizes diversas
por todo o corpo em geral,
mas gozando de saúde
de maneira triunfal.

Miguel usou seus recursos
sem rodeios, nem deslizes,
com a cirurgia plástica
tirou dela as cicatrizes,
dessa forma, mãe e filho
ficaram muito felizes.

Ela rejuvenesceu-se
devido as operações,
ficou bonita e saudável
sem mais preocupações,
esqueceu seus sofrimentos
com todas as aflições.

Jacira, a esposa do filho,
gostou da sogra bastante,
acostumou-se com ela
por ser leal e constante,
logo entre as duas reinou
uma paz inebriante.

Miguel depois deste exemplo
tornou-se um senhor bondoso,
jogou fora a soberba,
deixou de ser orgulhoso,
passou a gostar dos pobres
e ser homem caridoso.

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Reservou para a pobreza
metade do hospital,
só cobrava de quem tinha,
do pobre, nenhum real,
tais ensinamentos vinham
do seu berço maternal.

O vigia, que zangado
deixara o doutor Miguel,
por ter com os seus dois cães
feito essa cena cruel,
voltou para ele de novo
mais contente e mais fiel.

Os dois gigantescos cães,
que a Maria estraçalharam,
dentro de poucas semanas
com ela se acostumaram
e como por recompensa
seus bons amigos ficaram.

Aqui termino, leitores:
O FILHO DA LAVADEIRA
história bela e tristonha,
verídica e verdadeira,
agora vocês procurem
melhorar minha algibeira.

Julguem, leitores queridos,
o que praticou Miguel,
será que ele estava errado
impondo esse vil papel?
Lendo o livrinho com calma
vocês sentirão na alma
a dor de um viver cruel.

FIM