terça-feira, 8 de novembro de 2016

O MACACO MISTERIOSO


O Macaco Misterioso

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Oh! Aurora florescente
que surge da amplidão
trazendo afeto e beleza,
adorno, riso e clarão,
deixai que eu conte as bravuras
do herói Serapião.

Serapião era filho
de um grande comerciante
chamado: José Monteiro,
que vivia triunfante
na província São Luís,
de um reino muito distante.

Zé Monteiro era viúvo
e devotava carinho
a Serapião, seu filho,
guiando-o para o bom caminho,
porém ente algum revoga
um fato, quando é mesquinho.

Por ser ele um filho único,
vivia a vida a gozar,
mas por ser bonito e jovem,
longe estava de esperar
que a desdita viria
manchar o seu bem-estar.

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Ele tinha um tio rico
morando no estrangeiro,
num lugar chamado Minas,
era um grande fazendeiro,
o povo ali o chamava
Major Firmino Monteiro.

Serapião certa vez
resolveu ir visita-lo,
pediu permissão ao pai
que sentiu um grande abalo,
mas no final permitiu,
depois de recomendá-lo.

Disse: - Filho, ande direito
pra não suceder-lhe mal,
volte daqui a dois meses,
em tudo seja legal,
leve dinheiro e a benção
deste seu pai tão leal.

O moço ao chegar em Minas
procurou logo a morada
do tio que residia
numa fazenda elevada,
que da cidade uma légua
ficava distanciada.

Serapião com seu tio
sentia grande prazer,
passeava pelos campos
vendo o gado ali correr,
porém algo interessante
iria lhe acontecer.

Seu tio tinha uma filha
de beleza sem igual,
estudava num colégio
o melhor da capital
há anos ela era noiva
do filho de um general.

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Dessa tão formosa jovem
o seu nome era Julita,
além de educada, linda
quanto a flor da parasita,
o homem que ela amasse
teria a sorte bendita.

Julita lá no colégio
sentia satisfação
cuidando dos seus estudos
e também de uma paixão
que sentia pelo noivo,
o qual lhe tinha atenção.

Ela gozava as delícias
de um céu risonho e aberto,
não vivia na fazenda,
porque achava mais certo
morar na casa da avó,
que do colégio era perto.

Serapião na fazenda
estava bem descansado,
de momento viu chegar
um carro muito asseado
e dele saltou Julita
com o seu noivo de lado.

Julita não conhecia
seu primo Serapião,
foi aquela a vez primeira,
tomou-lhe logo afeição,
sentiu acendendo em si
as chamas de uma paixão.

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Por isto, a sua visita
a deixou contrariada,
ela sem sentir prazer
retirou-se contristada,
foi pensar no que faria
pra do primo ser amada.

À noite ela não dormiu,
levou o tempo em pensar
se desprezaria o noivo
ou prosseguia a lhe amar,
pois a paixão pelo primo
era de não suportar.

Ela não mais se contendo
mandou a Serapião
uma carta lhe dizendo:
- Meu amor, meu coração,
preciso falar contigo
em prol da nossa união.

Querido primo adorado,
eu te amo loucamente,
meu coração sente a febre
de uma chama forte e quente
e só tu abrandarás
este calor tão ardente.

Tu sabes bem que sou noiva
de um moço de qualidade,
mas eu casando com ele
não terei felicidade,
só contigo eu reinaria
unida à tranquilidade.

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Hoje às dez horas da noite
no jardim da Harmonia
eu vou te esperar, querido,
não mates minha alegria,
se falhares meu pedido
eu morrerei de agonia.

Depois da carta lacrada
ao seu primo ela enviou,
ele ao recebe-la abriu-a
e sem querer desmaiou
pro ver as frases tão lindas
que sua prima citou.

Mas reanimou-se e disse:
- A coisa vai ser bem ruim,
porque o tal noivo dela
não perdoará a mim,
porém com tudo eu irei
espera-la no jardim.

Finalmente, antes da hora
Serapião já se achava
sentado lá no jardim,
vendo quem ali passava
e sempre olhando o relógio
para ver se a hora chegava.

Ao bater da hora certa
o jovem Serapião
viu sua prima Julita
chegar e aperta-lhe a mão,
ele ali sentiu um choque
que parou seu coração.

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Passou-se um curto silêncio
sem um nem outro falar,
por fim Serapião disse
já quase a desanimar:
- Minha prima, o que fazemos
sozinhos neste lugar?

Grita a moça: - O que fazemos?
Tu já não estás ciente
que amo-te o quanto a vida?
Por ti sofro ardentemente!
Diz ele: - Eu também, querida,
amo-te extremosamente.

Mas acho ser impossível
conseguirmos esse amor,
pergunta a moça: - Por que?
Se eu te amo com ardor,
será possível que tu
sejas pra mim traidor?!

Diz ele: - Não, eu por ti
enfrento a qualquer perigo,
mas sei que encontrarei
na vida o maior castigo,
porque teu noivo será
o meu feroz inimigo.

Teu casamento com ele
é fácil de se acabar,
o titio com certeza
com tudo vai concordar,
mas o teu noivo, querida,
comigo vai batalhar.

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Outra mais, que ele é filho
de um general potentado,
quando perder teu amor
ficará indignado,
por isto será bem triste
para nós o resultado.

Ela disse: - Eu sei, querido,
mas se queres meu amor
eu contigo fugirei,
enfrentarei todo horror
e se morrer nos teus braços,
juro não sentir a dor.

Mas se negares a mim
o teu nobre coração,
morrerei de amor por ti
e depois da julgação
irei unir-me contigo
lá na Celeste Mansão.

Disse o moço: - Pela honra
do que disseste-me agora
não digas que sou cruel
para quem tanto me adora,
pois só Deus proibirá
de contigo eu ir-me embora.

Ao dizer isto abraçou-a
e bem na boca a beijou,
Julita de tão contente
dez minutos não falou,
mas depois reanimou-se
e também o osculou.

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Ambos ficam abraçados
sem se lembrar mais de nada,
a linda Julita estava
de paixão tão dominada
que quando cuidou de si
eram três da madrugada.

Julita disse: - Querido,
eu não posso mais voltar,
com certeza a minha avó
vendo-me tarde chegar
vai botar-me de castigo
e grande surra me dar.

Desta forma, o que te disse
desejo cumprir agora,
se me amas como dizes
leva-me daqui pra fora,
ele disse: - Agora mesmo,
se queres vamos embora.

A mocidade não pensa
no futuro e na paragem,
como bem esses dois jovens
naquela noite de aragem
fretaram um automóvel
para essa louca viagem.

O carro partiu veloz
quase igual à ventania,
correu o resto da noite
e um quarto do outro dia,
quando parou já cem léguas
de distância se media.

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Parou num lugar chamado
“Cidade do Nevoeiro”
ali os jovens saltaram,
mas foi grande o desespero
que projetou-se entre ambos
por não levarem dinheiro.

Quase em ponto de loucura
Serapião exclamou:
- Oh! Meu Deus! O meu dinheiro
lá com titio ficou,
não tenho nem para o carro
em que triste estado estou!

Julita ouvindo estas frases
soltou um forte gemido,
porque de levar dinheiro
também tinha se esquecido
e não podiam voltar,
pois tudo estava perdido.

Falou o dono do carro:
- Eu preciso receber
o dinheiro da corrida,
esse eu não posso perder,
pois só posso regressar
quando o caso resolver.

Dê-mem qualquer objeto
que faço a camaradagem,
Julita então quis provar
ser pessoa de linhagem,
com uma jóia pagou-lhe
a despesa da viagem.

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Dali o carro voltou
e os fugitivos ficaram,
com poucas horas depois
novo destino tomaram
e de pés por um caminho
com fé em Deus caminharam.

Apavorados seguiram
num caminho muito estreito,
os jovens nada levavam
de alimento ou de proveito,
naquela situação
só mesmo Deus dava jeito.

Naquela estranha jornada
os dois jovens se perderam
numa floresta escabrosa,
foi quando se arrependeram
daquela louca fugida,
logo então se entristeceram.

Começou se aproximando
uma noite muito escura,
o vento abalava os montes
com desmedida bravura,
a terra dava estalidos
da sua temperatura.

Saíam ecos das grutas
reboando pelo espaço,
os arvoredos rangiam,
a terra dava arregaço
nos jovens que se encontravam
num tenebroso embaraço.

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Julita não se continha
vendo o perigo de lado,
clamava e pedia a Deus
um destino bem guiado
pra sair daquelas selvas
salva com seu bem amado.

Mas ainda estava cedo
pra Deus mandar-lhes clemência,
assim a noite agitou-se
de ventos com violência
que arrebentavam as árvores,
provando sua influência.

Os jovens se conservavam
debaixo de um arvoredo
contemplando a tempestade
e sentindo um grande medo,
vendo que não poderiam
sair daquele degredo.

Permaneceram assim
no mais duro sofrimento,
a tempestade aumentou
com chuva, ruído e vento,
até que veio a aurora
mandada no firmamento.

O sol surgiu todo alegre
por cima dos matagais,
espalhou seus raios de ouro
cintilantes, colossais,
transformando a frialdade
nas encostas florestais.

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Todas as águas se escoavam
com eles atrapalhados,
pois chovera toda a noite,
ambos estavam molhados,
outra mais que pela fome
sentiam-se acabrunhados.

Mas contudo isto, seguiram
a borda de um grutilhão,
foram até meio-dia
por aquela direção,
viram adiante o formato
de uma grande habitação.

Eles que de tanta fome
não podiam se conter,
vendo esse formato ao longe
foram lá para saber
se aquilo era uma morada
pra pedirem de comer.

Depois de andarem bastante
viram ser uma morada,
porém não viram ninguém,
visto que estava fechada,
dando a parecer que era
há anos desabitada.

Pois era um grande castelo
de uma monstruosa altura,
feito no meio da mata
bem na parte mais escura,
aterrorizava a quem
olhasse-o de uma abertura.

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Mas os jovens não pensaram
em nenhuma perdição,
se aproximaram do prédio
e bateram no portão,
porque demais precisavam
de alguma alimentação.

Estava tudo em silêncio,
nem um tropel se ouvia,
Serapião como um louco
no grande portão batia
com força desordenada,
mas ninguém lhe respondia.

Agora eu vou explicar
aos meus apreciadores
que aquela infeliz morada
era de uns salteadores
que nestas horas se achavam
roubando e causando horrores.

Depois de terem roubado
numa estrada uns viajantes,
voltaram com o dinheiro
alegres e triunfantes,
mas na chegada encontraram
na porta esses dois amantes.

O chefe vinha na frente
e quando aos dois avistou
teve um susto tão tremendo
que foi falar, gaguejou,
pois a beleza da moça
logo a ele embriagou.

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Depois de um certo silêncio
falou um dos tais bandidos:
- O que fazem nesta porta?
Respondam dois atrevidos?!
Serapião disse a ele:
- Nós dois estamos perdidos.

E logo em poucas palavras
Serapião revelou
toda a história desde o dia
que com Julita arribou
e de como se perderam,
o bandido acreditou.

- Estejam bem-vindos, jovens,
falou assim o chefão
e mandou tratar dos dois,
porém a sua intenção
era ficar com Julita
e matar Serapião.

Serapião foi servido
de tudo o que precisava,
mas no futuro tristonho
ele nunca imaginava,
enquanto a sua desgraça
o chefão já preparava.

Ali na hora da janta,
esse chefão desgraçado
mandou prender o rapaz
por um bandido malvado,
depois num grande mourão
o rapaz foi amarrado.

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Em que tremendo sofrer
ficou a pobre Julita
vendo o seu noivo amarrado,
clamando por sua dita
e ela nas terríveis garras
daquela fera maldita.

Ela ouviu bem o tal chefe
dizer a Serapião:
- Vieste buscar a morte
aqui, nesta habitação,
e mais trazer pra mim
um luxuoso “pirão”.

Julita ouvindo estas frases
deu-lhe um ataque e caiu,
mas o chefe dos bandidos
a ela se dirigiu,
levou-a num aposento,
deixou-a dentro e saiu.

Enquanto a pobre Julita
estava sem o sentido,
seu noivo Serapião
fora dali conduzido
para uma praia deserta,
num lugar desconhecido.

Seus olhos iam vendados
para o rapaz não ver nada,
mas presenciou que ia
em cima de uma jangada,
a qual cortava no mar
as águas em disparada.

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Ao chegar em outra praia
essa jangada encostou,
um bandido ia com ele,
na mesma praia saltou,
o conduziu a um bosque
e numa árvore o amarrou.

Depois de afastou, deixando
Serapião amarrado,
entregue a todo relento,
além disto amordaçado,
sofrendo terrivelmente,
da luz do dia privado.

Serapião lamentava
a sua grande amargura,
arrenegava da sorte,
lembrava da desventura
em que se achava Julita,
sua luz, sua ternura.

Ele passou vários dias
sem comer e sem beber,
pedia a Deus que livrasse-o
de desta forma morrer,
nisto ouviu por trás de si
uma voz assim dizer:

- Serapião, se quiseres
eu darei-te a liberdade,
na condição de me dares
com espontânea vontade
a coisa que eu te pedir
pra minha felicidade.

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Serapião disse: - Eu dou-te
até minha própria vida,
só não a minha Julita
que se encontra sem guarida
ou talvez já deflorada
por uma fera homicida.

A voz disse: - Eu não pretendo
a tua gentil donzela,
que está presa a estas horas
numa monstruosa cela,
mas te afirmo que o chefão
inda não foi dono dela.

Pelo que eu irei pedir-te
tu não ficarás aflito,
se queres, eu tirarei-te
deste lugar esquisito
e também tua Julita
das mãos daquele maldito.

Grita o moço: - Então me salva
deste horroroso deserto!
Ele ao findar tais palavras
teve o rosto descoberto
e pôde ver um macaco
o fitando bem de perto.

Depois o moço liberto
o macaco preparou
uma jangada possante
e ao pobre moço entregou,
mandou que subisse nela
e bem franco lhe falou.

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Serapião, tua vida
seguiu a rota espinhosa,
tua Julita se encontra
numa prisão asquerosa,
logo amanhã morrerá
por ser muito caprichosa.

Pois ela não aceitou
o chefe por seu marido,
ele então considerando
o seu esforço perdido
resolveu mandar queimá-la,
por ser um cruel bandido.

Tanto que nesta jangada
agora tu partirás,
que na praia onde embarcaste
cedo amanhã chegarás
e com a triste sentença
por certo te encontrarás.

Toma este chicote mágico,
confia nele e em mim,
pois a quem chicoteares
no momento terá fim,
já tu estando com ele
nunca verás tempo ruim.

Toma também este líquido
suavíssimo e gostoso,
tu bebendo um gole dele
ficarás muito forçoso,
em qualquer luta que entrares
sairás vitorioso.

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Terminando ele a conversa,
sumiu-se na mesma hora,
Serapião ficou só,
também não quis ter demora,
firmou-se em sua jangada
e nela se foi embora.

Vou deixar Serapião
seguindo em sua jangada,
para falar em Julita
quando ficou desmaiada
por ver seu noivo amarrado
sem ter mais ação pra nada.

Como antes ficou, dito
que o moço fora levado
para morrer e Julita
ficou num tremendo estado,
sujeita àquele bandido,
 um monstro vil, desgraçado.

Ela ficou desmaiada,
nem ao menos se bulia,
logo o bandido levou-a
numa cama bem macia,
ela ali passou a noite,
foi tornar no outro dia.

Que tremendo espanto teve
ela, naquele momento
que despertou sobre um leito
de um luxuoso ornamento
a moça, nem no passado
teve tão rico aposento.

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Oh! Que tão grande agonia
sentiu a pobre donzela,
pois se achava sem defesa
numa alcova rica e bela,
quando notou que o chefão
ali se abraçou com ela.

Ela nos braços do monstro
exclamou angustiada:
- Solta-me sujeito imundo!
Que não serei tua amada,
mas nisto sentiu que estava
por ele sendo beijada.

Gritou: - Liberta meus lábios
que a ti não pertencerão!
Diz ele: - Querida minha,
abranda teu coração
que te terei como deusa
com toda veneração.

Ela grita: - Te retira
para bem longe de mim!
Ele disse: - Minha santa,
eu não pretendo ser ruim,
mas do jeito que estou vendo
sou forçado a dar-te fim.

Portanto, tens dois caminhos,
poderás um escolher
ou pra seres minha amada
ou do contrário morrer,
dou-te o prazo de dez dias
pra poderes responder.

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Ele depois retirou-se
deixando a jovem trancada,
clamando a todos os santos
sua sorte desgraçada,
só esperando a desonra
ou então, ser condenada.

No outro dia o bandido
tornou a lhe aparecer,
perguntou: - Queres amar-me
ou nos dez dias morrer?
A moça lhe gritou: - Some-te!
Para eu nunca mais te ver!

O bandido retirou-se
com uma raiva danada,
chegou junto dos seus cabras
fedendo a “macaca assada”,
ordenou pra nos dez dias
a donzela ser queimada.

Julita foi arrastada
desse aposento elegante
e amarrada lá num tronco
de um arvoredo possante,
pra passar na mesma dor
que passava o seu amante.

Ela ficou amarrada
sofrendo uma dor intensa,
não teve mais alimento,
nem nada por recompensa,
até que chegou o dia
de cumprir sua sentença.

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Chegou o dia fatal
da morte dessa donzela,
a quadrilha dos bandidos
achava-se junto dela
preparando uma coivara
pra queimar a jovem bela.

Agora eu deixou os bandidos
seu coivarão preparando,
Julita amarrada ali
e o fogo já laborando,
pra falar no noivo dela
que vinha se aproximando.

O moço tinha deixado
na praia a sua jangada
e vinha de mato afora
numa louca disparada
pra ver se chegava em tempo
de defender sua amada.

Ao chegar, foi logo ouvindo
o bandido perguntar
qual Julita preferia:
Morrer ou a ele amar
e ela dizer: - Eu prefiro
neste fogo me queimar.

- Queimem esta desgraçada!
O chefe assim ordenou,
um dos bandidos virou-se,
com Julita se agarrou,
mas antes de desatá-la
grande lapada levou.

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Este foi com o chicote
que tinha Serapião,
cujo bandido sumiu-se,
parece que entrou no chão,
ali travou-se na bala
a maior revolução.

Julita nada fazia,
porque se achava amarrada,
os mais entraram na luta,
foi bonita a batucada,
Serapião se vingava
somente em dá chicotada.

O chicote onde batia
só se via o fumaceiro,
o cabra nem se bulia,
pegava fogo ligeiro,
no moço, bala ofendia
quanto o vento num lajeiro.

A volta desse chicote
não era de muita graça,
porque daqueles bandidos
que entraram na desgraça
o que melhor arranjou-se
foi transformado em fumaça.

Depois da luta acabada
o moço logo em seguida
libertou sua Julita
que se achava esmorecida,
devido a tanta emoção
não dava sinal de vida.

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Ele a colocou nos braços
e com carinho a beijou,
do líquido que trazia
um pouquinho lhe aplicou,
ela voltou ao seu tino
e com ele se abraçou.

Depois exclamou: - Meu anjo,
esmagaste a minha dor!
Por certo, foi um milagre
mandado do Criador
para suspender-me um cálice
de um tão profundo amargor.

Disse o moço: - Sim querida!
De Deus eu tive a mercê,
mas devo tudo a um macaco
e nele existe um “ganguê”,
pois eu ainda hei de dar-lhe,
agora não sei o que!

Ele ali contou-lhe tudo
que consigo se passou,
desde que fora amarrado,
até quando se soltou
e sobre o dito macaco,
tudo enfim ele contou.

Depois eles dois entraram
no castelo abandonado
abriram todos os  quartos,
o moço ficou gelado,
porque viu tanta riqueza
como as que tem num reinado.

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Ele viu que essa riqueza
pra si os ladrões deixaram,
uma parte necessária
os dois jovens retiraram,
depois fechando o castelo
para fora viajaram.

Agora eu deixo os dois jovens
saindo do florestal
pra falar no reboliço
que era descomunal
naquela nobre família
do filho do general.

Eu volto a falar de quando
a moça foi se encontrar
com seu primo no jardim,
haja a avó a lhe esperar
e assim a noite passou-se
sem a menina voltar.

Já tarde do outro dia
a vovó preocupada
mandou saber na fazenda
se Julita era chegada,
mas lá disseram que não,
ali travou-se a zuada.

A procura de Julita
foi feita com decisão,
depois deram pela falta
do jovem Serapião
e viram bem que foi ele
o autor da traição.

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Com ódio descomedido
o filho do general
organizou umas tropas
e seguiu feito um chacal
procurando os fugitivos
por toda parte em geral.

Deu logo autorização
a todo seu contingente
para quando os encontrar
mata-los barbaramente,
mas ele também seguiu
mordendo-se brutalmente.

Também o pai de Julita
preparou bem seu cangaço,
uns duzentos cangaceiros
acharam-se no terraço
da casa grande, se armando
com rifle e punhais de aço.

O contingente do noivo
partiu de forma homicida,
o coronel pai da moça
preparou sua partida,
agora eu falo nos dois
bem descansados da vida.

Serapião tinha posto
sua riqueza segura
e vinha com sua amada,
a beijando com doçura,
sem saber que a desgraça
já vinha em sua procura.

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Ele com sua querida
subiu uma grande serra,
saiu em uma planície
e viu que naquela terra
havia certa aparência
com um dos campos de guerra.

O jovem desconfiou
que estava sendo emboscado,
como de fato ele adiante
viu o campo empiquetado
por umas tropas do filho
do general do passado.

Com uma forte rajada
ele logo se encontrou,
numa levada que havia
Julita bem se ocultou,
ele com o seu chicote
naquela luta embocou.

Só se via o fumaceiro
e muitos dando gemidos,
o moço com seu chicote
deixou todos derretidos,
fez pior do que na gruta,
quando abateu aos bandidos.

O filho do general
na luta também tombou,
Serapião com Julita
desse local se afastou,
com os capangas do tio
logo adiante se encontrou.

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Travou-se ali outra luta,
foi enorme a mortandade,
o moço com o chicote
queimava sem piedade,
dos cabras em dez minutos
ele abateu a metade.

O velho vendo o perigo
pediu a paz na questão
e abraçou sua filhinha
chorando pela emoção,
depois foram pra fazenda
todos com grande união.

No outro dia bem cedo
Serapião foi buscar
a riqueza do castelo,
para dela se gozar,
quase que três caminhões
não davam para a carregar.

Depois Firmino vendeu
a sua propriedade
por uma vultosa soma
e temendo novidade
mudou-se pra São Luís,
foi sua felicidade.

Julita e Serapião
juntos com ele embarcaram,
com muita felicidade,
quando em São Luís chegaram,
lá na casa de Monteiro
com uns dias se casaram.

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Sumiu-se ali o chicote,
Serapião deu cavaco,
porque sem aquela arma
ele era um homem fraco,
vamos ver no fim do livro
o que queria o macaco.

O pai de Serapião
quis ser homem justiceiro,
vendeu também os seus bens,
arranjou muito dinheiro,
assim juntos embarcaram
para um país estrangeiro.

Nesse país estrangeiro,
que o nome não sei citar,
esses viventes chegaram,
então posso lhes contar
que compraram uma ilha
e nela foram morar.

Cuja ilha era deserta,
do mundo quase esquecida,
mas eles fizeram dela
uma cidade instruída,
essa então passou a ser
A Ilha da Nova Vida.

O moço ficou gozando
uma vida de primor,
vendo de um lado o seu sogro,
do outro o papai de amor
e nos seus braços Julita,
seu sonho triunfador.

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Com um ano, depois disto,
naquela feliz morada
Julita foi mãe de uma
menina, linda e mimada,
era a segunda Julita
em criança transformada.

Deram para essa menina
o nome de Flor do Lar,
por ser ela a mais bonita
das crianças do lugar,
assim ela foi crescendo
com formosura sem par.

Aos seus pais, cada vez mais
causava amabilidade
aquela bela menina,
mistério da divindade,
até que ela completou
os seus quinze anos de idade.

Chegou ela a ser moça,
maior do mundo em beleza,
e mais, gozava as delícias
da sua grande riqueza,
sem saber que iria ter
na vida a maior surpresa.

Um dia toda a família
com ela estava presente
num luxuoso salão,
quando chegou de repente
o macaco do passado
e falou sinceramente:

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- Amigo Serapião,
recorda-te de um passado?
Diz Serapião: - Recordo-me!
Por ti eu fui libertado,
sei que te devo um pedido,
faze-o que terás dobrado.

Diz o macaco: - Pois ouve-o,
ele não vai te agradar,
o que eu quero é tua filha
pra comigo se casar,
aceitas o meu pedido?
Ou pretendes me enganar?

- Aceito com muito gosto,
respondeu Serapião,
houve ali, entre a família,
tamanha decepção,
deu a moça um passamento
que a fez rebolar no chão.

Todos gritam: - É horrível
fazermos tal casamento!
Serapião protestou
todo aquele impedimento,
mandou chamar um juiz
e cumpriu seu juramento.

De um castelo abandonado
o macaco se empossou,
com a moça desmaiada
no mesmo ele se trancou,
uma noite de tormentas
logo mais se aproximou.

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O povo no outro dia
despertou todo assombrado,
porque essa ilha antiga
transformou-se num reinado,
pois o seu grande mistério
chegou sem ser esperado.

Serapião nessa hora
do chicote se lembrou
e daquelas grandes lutas
que junto a ele alcançou,
por isto do que ele via
em nada se admirou.

Depois olhando o palácio,
viu numa linda janela
sua filha, uma rainha
numa veste rica e bela
e um príncipe elegantíssimo
sorridente, ao lado dela.

Justamente aquele príncipe
há anos fora encantado
num macaco, mas por ter
a Serapião salvado
voltou a reinar, no reino
que dantes tinha reinado.

Já Flor do Lar, foi rainha,
O macaco, um ser humano,
Serapião viu a filha
inspirando um soberano,
leitor, se quer dar cavaco
vá casar com um macaco,
até sair desse engano.

FIM