domingo, 13 de novembro de 2016

OS SOFRIMENTOS DE AURORA


Os sofrimentos de Aurora


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Lindo romance de amor e sofrimentos, onde lutam dois corações apaixonados em busca de um amor quase impossível. Àquelas pessoas, principalmente as que amam e sofrem, lendo esta linda história, sentirão a dor daquilo por quem lutam. É este o drama penoso e apaixonante de dois jovens que tiveram o destino de se amar tanto e serem cruelmente perturbados no seu tão lindo e grande amor. Geraldo e Aurora. Será que venceram aos quase impenetráveis labirintos da estrada que os conduzia à felicidade? Leiam e sintam.

Amor! Palavra sublime
que traz da centelha a chama,
feliz de quem é amado
pela pessoa a quem ama,
infeliz de quem na vida
pelo ser oposto gama.

Quando os dois amam-se mesmo
o cupido dar-lhes firmeza,
a coroa da virtude
com seu laurel de beleza
coroa-os, abrilhantando-os
no figurar da grandeza.

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O jardim da poesia
dar-lhes-á seu ramalhete,
Netuno lhes mandará
seu gigantesco paquete,
Morfeu lhes ofertará
seu eterno palacete.

Ambos serão recebidos
pelo rei, deus dos amores,
o Éden lhes mandará
um buquê de lindas flores,
quanto a flora, lhes dará
o manto das suas cores.

Os peixes dão-lhes seu fôlego
para não serem sufocados,
o Sol manda o seu calor,
deixando-os imunizados
e os rios suas correntes,
para não serem arrastados.

Os astros dão-lhes coragem,
as plantas, o seu odor,
a Natureza, o sorriso,
o Céus, o seu esplendor,
o dia, a sua luz santa,
a noite, o seu bel frescor.

A terra dar-lhes seu trono,
o espaço, a direção,
os deuses lhes glorificam,
a musa dar-lhes canção,
os signos cobertura,
o Astral a permissão.

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Amar é coisa divina
que vem da imensidade,
do amor se gera tudo
que compõe a humanidade,
mas só terá cobertura
quem ama com lealdade.

A mulher ama ao marido,
os filhos amam seus pais,
há o amor em toda a parte
com sentidos desiguais,
até nas altas florestas,
com os irracionais.

Deus ama a todos os seus filhos,
dos grandes aos pequeninos,
ama a sua eterna obra,
que fez com seus dotes finos,
impondo com segurança
seus contatos genuínos.

Devemos amar ao próximo
de acordo aos bons atos nossos,
eu amo aos meus mais queridos,
vós irmãos, amai aos vossos,
amemos dos seres vivos,
ao final dos nossos ossos.

Por isto, desta palavra
que a humanidade adora,
eu preparei este drama
que passo a vocês agora,
que vem intitulado:
OS SOFRIMENTOS DE AURORA

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Aurora era uma garota
com seus doze anos de idade,
filha de um major potente,
daqueles da antiguidade,
que quando tinham fortuna,
tinham toda imunidade.

O major Vicente Lemos,
grande senhor na Bahia,
fazendeiro de alto nível,
num grande apogeu vivia,
sendo há doze anos viúvo,
coisa que muito sentia.

Ana, a sua esposa amada,
morrera ao nascer da filha,
Aurora não tinha culpa,
era a linda maravilha
de todos, daquela terra
que pisavam bem na trilha.

Aurora com doze aninhos
parecia uma princesa,
linda igualmente uma santa,
dotada em delicadeza,
seu rostinho demonstrava
tudo o que vem da beleza.

Ela tinha os dedos longos,
as mãos finas, delicadas,
os olhos negros, brilhantes,
as faces muito coradas,
os cabelos pretos-lisos,
as pernas bem modeladas.

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Os lábios finos, perfeitos,
formando uma linda rosa,
dentes alvos e pequenos,
pondo a boca mais mimosa,
de onde saía uma voz
educada e carinhosa.

Seu busto, lindo desenho,
sua cintura, um pilão,
seus pés pequenos, bem feitos,
quando pisavam no chão
o deixavam retratados
com a maior perfeição.

Seu nariz arrebitado
tornava-a mais graciosa,
suas covinhas pequenas
a punham demais formosa,
era a garota sorriso,
alegre e maravilhosa.

Tinha as orelhas pequenas,
o pescoço regular,
braços nem grossos, nem finos,
com feitio modelar,
sua cor morena clara
era mesmo de encantar.

Estava quase mocinha
a linda deusa baiana,
não conhecia na vida
a dor malvada e tirana
que vive ofuscando a luz
de toda esta raça humana.

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Aurora era o bel consolo
do seu papai, o major,
que conservou-se viúvo,
por achar ser bem melhor
não dar madrasta a Aurora,
fugindo assim da pior.

Ela achava que madrasta
não trata de uma enteada
como se trata de um filho
ou de uma filha adorada,
por isto criou Aurora
sem mãe, madrasta, nem nada.

Aurora fora educada
ali mesmo na fazenda
por professores de fora,
já vindos por encomenda,
pois o major tinha a filha
em conta da maior prenda.

Doze aninhos tinha Aurora
quando surgiu um vaqueiro
viúvo e muito dotado
de um caráter verdadeiro,
o qual possuía um filho
de um porte fino, altaneiro.

Tinha quinze anos, apenas,
de Geraldo se chamava,
era um lindo rapazinho
que ao pai acompanhava,
por não ter a mãe querida
somente ao seu pai amava.

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O vaqueiro Damião
adorava aquele filho,
vivia só para ele,
sem mágoa, nem empecilho,
pedia sempre ao Eterno
para dar-lhe o justo trilho.

O major e pai de Aurora
deu emprego ao bom vaqueiro,
por ser forte e competente,
apesar de forasteiro,
o qual se tornou dos outros
um distinto companheiro.

Lá de um rebanho de ovelhas,
seu filho ficou tratando,
era um garotão sabido
que a todos foi conquistando,
com a sua nova vida
ele foi se acostumando.

Geraldo com essa idade
estava quase um rapaz,
tão bonito quanto um príncipe
dos reinos orientais,
as garotas lhe cercavam
com seus desejos banais.

Ele não olhava nada
naquelas tolas centelhas
das garotas que por ele
chegavam ficar vermelhas,
ele só via na vida
seu pai e suas ovelhas.

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Era junto de um regato
que o moço pastoreava
o seu rebanho de ovelhas,
lá todo o dia passava
debaixo de um arvoredo
que no lugar sombreava.

Debaixo desse arvoredo
ele ficava cantando,
as ovelhas lá no campo
permaneciam pastando
numa espécie de brinquedo,
por muitas vezes pulando.

Geraldo vivia ali
junto com seus animais,
naquele recanto lindo,
próximos dos matagais,
vendo as águas cristalinas
descendo dos minerais.

Ele dizia: - Isto aqui
é o colossal em beleza,
obra feita por Deus Pai,
de sublimada grandeza,
um dos caprichos Divinos
que nos deu a Natureza.

Quisera poder viver
aqui toda minha vida,
quisera deste arvoredo
fazer a minha guarida,
junto à moça dos meus sonhos,
aquela deusa querida.

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Se tu Aurora quisesses
realizar os meus sonhos,
trazendo a mim as carícias
dos teus lábios tão risonhos,
eu jamais me envolveria
em pensamentos tristonhos.

Trazes para mim, Aurora,
teu sorriso jovial,
tua voz tão delicada,
teu perfume original
para eu cobrir com meus beijos
tua boca sensual.

Eu se tivesse na vida
o teu amor, minha Aurora,
seria o ser mais feliz
que de um ventre veio fora,
vens querida de minha alma!
Consola quem por ti chora.

Pois Geraldo tinha visto
Aurora quando chegou,
como quer sendo um feitiço
por ela se apaixonou,
ela da mesma maneira
por ele também gamou.

Ela sentiu-se atraída
pelo filho do vaqueiro,
sentia que ele ia ser
o seu lindo amor primeiro
e o único em sua vida,
por todo um viver inteiro.

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Aurora amava a Geraldo,
Geraldo amava a Aurora,
ambos nunca se falaram
nem por um quarto de hora,
ela estava sempre em casa
e ele sempre estava fora.

Que Aurora o amava tanto,
ele nunca imaginava,
ela da mesma maneira,
por completo, ignorava
que Geraldo lá no campo
pelo seu nome chamava.

Aurora não suportando
as tamanhas vibrações
que seu coração gritava,
no jogo das tentações,
sentiu-se logo envolvida
no vendaval das paixões.

Ela dizia consigo:
- Geraldo! Meu grande amor!
Declara-te a mim, querido,
e abranda o forte calor
que vem queimando o meu peito,
como um fogo abrasador.

Quero ser tua, Geraldo,
e quero que sejas meu,
quero amar-te e ser amada,
quero ter o amor teu,
quero ser única dona
dos dotes que Deus te deu.

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Aurora um dia saiu
de sua casa, à tardinha,
em direção ao regato,
quando Geraldo já vinha
com seu rebanho de volta,
assim não viu a mocinha.

Mesmo ela tinha ficado
numas moitas, escondida,
o viu bem com seu rebanho
distraído em sua lida,
ela pensou: - Tu serás
o homem da minha vida.

No outro dia, às dez horas,
ela saiu em segredo,
procurando sempre as moitas,
num gesto de quem tem medo,
viu lá Geraldo sentado
debaixo desse arvoredo.

Geraldo estava cantando,
no fim disse: - Minha Aurora,
eu se tivesse o prazer
de te ver aqui, agora,
beijaria a tua boca,
te sufocando uma hora.

Aurora ouvindo as palavras
que o seu coração pedia,
não soube mais dominar-se,
foi tanta a sua alegria
que disse para Geraldo:
- Então chegou nosso dia!

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E sem dizer mais palavras
jogou-se nos braços dele,
Geraldo não esperava
um momento como aquele,
tornou-se acanhado e pasmo
como quem não ficou nele.

Depois passou suas mãos
naquelas faces coradas,
encontrou-as tão macias
como luvas acetinadas,
mas sentiu que pelas chamas
achavam-se afogueadas.

Ele com seus lábios quentes
nas faces dela beijou,
sentiu um calor tão forte
que a todo o corpo esquentou,
depois aos seus lindos olhos
com toda paixão fitou.

Aqueles dois diamantes
bem dentro dos seus pararam,
por mais de quinze minutos
os seus olhos lhe fitaram,
quando passou todo o êxtase
os dois jovens se abraçaram.

Com esse abraço apertado
as suas bocas se uniram,
colaram lábios com lábios,
no paraíso se viram,
só os dois sabem contar
todo o prazer que sentiram.

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Depois com carinho extremo
o garoto separou
os seus lábios dos de Aurora
e viu que se projetou
a mais bonita das rosas
na boquinha que escapou.

Que boca! Que linda rosa!
Geraldo na moça viu,
ele vendo-a palpitante
na hora não resistiu,
logo ali com novo beijo
aquela boca cobriu.

Quando os jovens separaram
um do outro, a sua boca,
Aurora disse: - Querido,
eu sinto-me quase louca
quando recebo os teus beijos,
toda a minha força é pouca.

Ele disse: - Minha amada,
será que eu estou sonhando?
Serás mesmo tu, Aurora,
aquela a quem vivo amando,
que acha-se entre os meus braços
carinhosa, me beijando?

Disse Aurora: - É verdade,
sou eu mesma, a tua Aurora,
a moça que vem te amando
e por ti soluça e chora,
dando-te a prova sagrada
que te venera e te adora.

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Diz Geraldo: - Eu acredito
na tua fidelidade,
creio também que me amas
com toda sinceridade,
mas vejo que estamos longe
da total felicidade.

Inda somos muito jovens,
estás só com doze anos,
eu somente estou com quinze,
mas não seremos profanos,
por sermos adolescentes
não podemos fazer planos.

Ela disse: - Isto é verdade,
mas eu pretendo esperar
a minha maioridade
para poder me casar,
tu fostes o escolhido
para levar-me ao altar.

Concordas com este item
que eu agora te propus?
Geraldo disse: - Concordo,
por tu seres minha luz
vou abraçar por seis anos
esta tão pesada cruz.

Ao passar destes seis anos
eu completo os vinte e um,
já tu completas dezoito,
não haverá medo algum
para eu pedir-te ao teu pai,
por ser um caso comum.

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Ela disse: - Estou de acordo
e creio em tua bondade,
virei aqui todo dia
para matar saudade,
mas te peço que conserves
sempre a minha virgindade.

A minha alma te pertence,
minha boca é toda tua,
me beijas quando quiseres,
que nosso amor continua,
mas te peço meu querido
nunca me jogues na rua.

Não queiras ver tua amada
mergulhada sob a lama,
respeita a quem te venera
e por ti sonhando chama,
conserva aquilo que é teu,
honra a moça que te ama.

Conserva a minha pureza,
não mata a minha ternura,
protege a mim, meu amado!
Quero ouvir a tua jura
que seguirei ao altar
honrada, risonha e pura.

Quero estar aos pés da Virgem,
de palma, véu e capela
e contigo ajoelhar-me
sem ter nada a temer dela,
ostentando a segurança
do meu condão de donzela.

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Jura Geraldo, em honrar-me
até na hora sagrada?
Geraldo lhe disse: - Eu juro
por Deus e Maria amada,
juro levar-te ao altar
sem antes seres tocada.

Ela disse: - Deus te ouça
e te conserve assim nobre,
meu pai vai reconhecer-te,
mesmo te sabendo pobre,
pois quem tem honra e moral,
a toda riqueza cobre.

Nesta idade em que estamos
um casamento não vai,
porque o consentimento
terá que vir do meu pai
e tal autorização
agora eu sei que não sai.

Por enquanto ele sabendo,
nos priva da liberdade,
mesmo eu não querendo perder-te,
porque te amo, em verdade,
e não pretendo perder
a minha felicidade.

Agora meu grande amor,
eu vou te deixar sozinho,
já faz horas que saí,
só volto amanhã cedinho
para te abraçar de novo,
mas antes dá-me um beijinho!

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Geraldo abraçou Aurora
e com carinho a beijou,
logo os seus cabelos negros
por muito tempo alisou,
também suas lindas faces
uma por uma osculou.

Depois Aurora partiu,
Geraldo ficou pensando
e vendo o seu lindo vulto
lentamente se afastando,
ele sentiu que seus lábios
há muito estavam queimando.

Quando o vultinho de Aurora
dali desapareceu,
ele juntou as ovelhas,
foi quando compreendeu
que o Sol já vinha se pondo,
logo mais anoiteceu.

Logo no dia seguinte
Aurora chegou sorrindo,
ele abraçou com ternura
aquele corpinho lindo,
sem notar que certo vulto
a ela estava seguindo.

Ele disse: - Minha Aurora,
minha deusa, minha flor,
estes teus cabelos negros
da lua têm o frescor,
do cetim a maciez
e da flora o seu odor.

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Tu és a deusa terrena
da minha consolação,
a rainha dos meus sonhos,
a luz da minha ilusão,
a relíquia dos meus dias,
a flor do meu coração.

Tua boca, minha Aurora,
é no mundo a mais mimosa,
teus lábios são duas pétalas
formando o botão da rosa,
as covinhas do teu rosto
te fazem de mais formosa.

Estes teus lindos cabelos
que até nos teus ombros descem
são madeixas sublimadas,
que voando permanecem
circundando o teu pescoço,
igual as plantas que crescem.

Teus dois diamantes negros,
que a minha alma iluminam,
são estes teus lindos olhos
que aos meus tanto dominam,
são luzes trazendo luzes,
são astrais que se combinam.

As tuas faces rosadas
roubam a cor da romã,
tua pele aveludada
tem um sublimado afã,
tu és a sagrada Aurora
que traz o meu amanhã.

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Os teus lábios perfumados
têm o néctar das flores,
são como o suco do mel,
repleto de mil sabores,
teu sorriso, minha Aurora,
domina ao deus dos amores.

Tuas mãozinhas tão leves
são mesmo acariciantes,
teus pés, dois desenhos lindos,
que dão passadas constantes,
modelam teus joelhinhos,
que mostram ser fascinantes.

Todo o teu corpo, querida,
forma um desenho divino,
Deus te formou com perfeição,
pondo um tratamento fino,
és um anjo terreal,
tão meigo e tão pequenino.

Aurora disse: - Querido,
tu és o meu beija-flor,
meu ramalhete sagrado,
minha sombra, meu calor,
o homem da minha vida,
único e primeiro amor.

Beija-me agora, querido,
consola este meu desejo,
eu te quero, que te pertenço,
outra saída não vejo,
nessa hora os dois uniram
as bocas, num terno beijo.

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Aurora depois lhe disse:
- Meu calor foi abrandado,
mas eu prevejo uma sombra
seguindo sempre ao meu lado,
nosso amor foi descoberto!
Eu sinto, meu grande amado!

Geraldo disse: - Querida,
não diga coisas fatais,
ninguém vem nos perturbar
perante estes animais,
as ovelhas são divinas,
como são os vegetais.

Ela disse: - Mas eu sinto,
por isto quero ir embora,
adeus sonho da minha alma!
Preciso partir agora,
ele disse: - Vais meu riso!
Mas volta amanhã, Aurora.

Aurora sem responder-lhe
correndo seguiu para casa,
chegando encontrou seu pai
com os olhos quase em brasa,
sofrendo o quanto uma ave
no ar, sem nenhuma asa.

Aurora quis perguntar-lhe
a razão da sua dor,
mas ele sem nem olhá-la
disse para um seu feitor:
- Prepare a minha charrete
e sirva de portador.

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Com duas horas depois
Aurora estava embarcada
na charrete do seu pai,
que seguia em disparada,
a moça desconhecia
para onde era levada.

A fazenda do major
ficava no lado Norte,
mas a charrete seguia
ao inverso, sem recorte,
procurando a linha Sul,
mudando da moça a sorte.

O feitor com a charrete
seguia numa rodagem,
Aurora chorava calma,
sem olhar para a paisagem,
quando aproximou-se a noite,
dormiram numa estalagem.

Ao romper da madrugada
prosseguiram viajando,
o portador cabisbaixo
ia ao cavalo açoitando,
Aurora permanecia
sem dizer nada, apenas chorando.

Às quatro e tantas da tarde
Aurora pôde avistar
um mundo todo de areia,
de uma beleza sem par,
ela conheceu que estavam
rondando na beira-mar.

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Bem na porta de um convento
essa charrete parou,
surgiu ali uma freira,
o portador lhe entregou
Aurora e mais uma carta
e sem falar regressou.

Naquele triste convento
Aurora ficou guardada,
ia ser dali em diante
só por freiras controlada,
sem ver mais sua fazenda,
seu pai, Geraldo e mais nada.

E mais, ela não sabia
aonde era que se achava,
só que era junto à praia,
por isto desconfiava
que para a sua fazenda
dali nunca mais voltava.

Ela recebeu das freiras
um roupão sinistro e preto,
seu corpo vestido nele
transformou-se num graveto,
ela disse: - Santo Deus!
Pareço-me um esqueleto!

A única diferença
é que visto uma mortalha,
sou esqueleto vestido!
Isto a mim muito atrapalha
e nesta comédia toda
meu pai é o maior canalha.

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Eu sentia que a desgraça
andava à minha procura,
não da parte de Geraldo,
pois confio em sua jura,
com certeza foi meu pai
quem fez minha desventura.

Meu pai! Meu querido!
Será que tu descobriste
o meu amor por Geraldo
e logo nos perseguiste?
Meu coração te pergunta:
Meu pai, por que me traíste?

Meu pai! Eu sou tua Aurora,
a garota que criaste
e durante os doze anos
com tanto carinho amaste,
por que, meu querido pai,
agora me abandonaste?

Tu tiraste-me de casa,
assim pra ti nada sou,
mandaste-me para um mundo
que Deus nunca te ordenou,
o tudo que me acabrunha
é não saber onde estou.

Estas freiras não me estimam,
eu sinto bem que me odeiam,
mortalharam-me com vida
e em torno de mim passeiam,
sendo por ti contratadas,
como feras me rodeiam.

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Não, meu pai, tu não és mau,
porém o teu grande orgulho
fez de ti um bruto algoz,
tendo a mim, como um entulho
daquele que vem jogado
do lixo, feito um vasculho.

E tu Geraldo querido,
com certeza estás sofrendo,
minha ausência para ti
é por certo um golpe horrendo,
eu sinto querido, eu sinto
que lá estas te maldizendo.

Mas eu te juro Geraldo
que serei tua somente,
não há força que me dome
neste maldito ambiente,
mas sempre te amarei muito,
mesmo estando assim ausente.

Espera por mim, Geraldo,
pois eu daqui sairei,
um dia pra minha casa,
com vida, inda voltarei
e se tu fores solteiro,
contigo me casarei.

Da mesma forma, Geraldo
sentiu a falta de Aurora,
ela não mais foi ao campo,
ele lamentava a hora
que dali se separaram
para um destino caipora.

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Ele dizia: - Querida,
tu bem que me preveniste
que alguém nos perseguia,
foi certo o que pressentiste,
eu sei que teu pai prendeu-te,
mas de mim, não desististe.

Eu creio no teu amor,
confiando em tua jura,
sei que estás sofrendo muito,
mas te conservando pura
pede a Deus, que Ele te livra
desta triste desventura.

Deus é bom, justo e socorre
ao filho que lhe quer bem,
entrega teu sofrimento
a Ele, no Grande Além,
que cá junto às ovelhinhas
fico rezando também.

Assim, os jovens ficaram
pelo major separados,
o major os tinha visto
naquela sombra, abraçados,
trocando juras de amor
e dando beijos colados.

Por isto afastou Aurora
para um convento, em Ilhéus,
a pobre moça ficou
padecendo igual aos réus,
num mundo que nunca foi
abençoado dos Céus.

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Geraldo todos os dias
conduziu o seu rebanho,
ficava esperando Aurora
num sofrimento tamanho,
aquele local para ele
tornou-se bastante estranho.

Geraldo sentia a perda
da sua Aurora querida,
ela no seu internato
chorava desiludida,
considerava o convento
o seu túmulo da vida.

Os anos foram passando
com os dois no sofrimento,
Geraldo com as ovelhas,
Aurora no seu convento,
um pensava só no outro
com amor, não fingimento.

Seis anos foram passados,
fez ela os dezoito anos,
Geraldo, vinte e um,
desta forma os dois baianos
estavam na justa idade
de realizar seus planos.

Aurora, apesar de presa,
era bonita demais,
mesmo vestida de monstro
seu rosto tinha os sinais
da donzela mais perfeita
que surgiu entre os mortais.

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Geraldo tornou-se um jovem
de beleza sem igual,
não parecia um pastor
envolto num florestal,
parecia um lindo príncipe
lá do mundo oriental.

O major não disse nunca
pra onde mandara a filha,
enquanto o destino armava
para ele uma armadilha,
a fim de jogar seus pés
no gancho de uma forquilha.

Nesse tempo estava em foco
a vida de Lampião,
seus cangaceiros roubavam
as fazendas do sertão
com grupos bem divididos,
causando desolação.

Sete estados nordestinos
sofriam grande embaraço,
com seu povo em reboliço,
recebendo o arregaço
dos grupos de Lampião,
o grande Rei do Cangaço.

Certa vez um destes grupos
atacou ao fazendeiro,
pai da sofredora Aurora,
do dia dez de janeiro
a bala choveu três horas,
desde a casa ao campo inteiro.

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Os cabras mataram todos
que se achavam nessa hora,
depois com dinheiro e joias
do local, caíram fora
deixando morto também
o pai da garota Aurora.

O vaqueiro Damião
não se achava, no momento,
por isto escapou com vida
daquele trucidamento,
Deus assim quis defende-lo
de um golpe tão violento.

Geraldo estava no campo,
de onde ouviu o tiroteio,
ele deixou as ovelhas
e partiu com seu receio,
na fazenda deparou-se
com esse escangalho feio.

O seu pai e uns moradores
também chegaram na hora,
viram só sangue e cadáveres
de outros e do pai de Aurora,
Geraldo disse: - Meu pai,
diga-me o que faço agora? !

Perdi antes minha Aurora
e agora o meu bom patrão,
quem vai herdar isto tudo,
talvez seja a união?
Assim quis o grande monstro
que o chamam de Lampião.

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Damião disse: - Meu filho,
isto pertence à Aurora,
vamos remexer a casa,
talvez Deus nos mostre agora
um documento, ensinando
o lugar onde ela mora.

Os dois tomando medidas
pela casa penetraram,
dentro de uma gaveta velha
muitas cartas encontraram,
e com umas do convento
logo mais se depararam.

Dessa forma, descobriram
onde Aurora estava presa,
tiveram grande alegria
e também certa tristeza,
vendo que o major pagou
por toda a sua vileza.

Sobre o grande tiroteio
depressa comunicaram
às grandes autoridades,
que providência tomaram
e aos corpos dos que morreram
daquele local levaram.

O vaqueiro Damião
ficou regendo a fazenda,
Geraldo foi para Ilhéus
buscar a sua encomenda,
Aurora, seu lindo sonho,
sua idolatrada prenda.

----------------------------------30----------------------------------

Num dia de sexta-feira,
Aurora viu no portão
aquele rapaz distinto
lhe acenando com a mão,
ela aproximou-se dele
imitando uma visão.

Ela quando viu Geraldo
na hora o reconheceu,
quis gritar, faltou-lhe a voz,
quis andar, esmoreceu,
logo ali pesadamente
sobre o solo se estendeu.

Geraldo pediu socorro,
as freiras logo acorreram,
bastante preocupadas
à donzela socorreram,
depois Geraldo contou-lhes
as coisas como ocorreram.

Aurora por já se achar
com dezoito anos de idade
e ser herdeira do pai,
teve logo a liberdade,
por isso foi tomar conta
da sua propriedade.

Aquele roupão sinistro
para sempre ela tirou,
por uma roupa de gente
bem satisfeita trocou e
com seu noivo Geraldo
para a fazenda voltou.

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Ao chegar, chorou com pena
de quem morreu com seu pai,
depois disse a Damião:
- O senhor agora vai
administrar meus bens,
esta razão bem me atrai.

Quanto ao seu filho, Geraldo,
eu lhe condeno à prisão,
viverá perpetuamente
com sua condenação,
trancado numa cadeia
chamada: Meu coração.

Ele terá dois grilhões
apertando-o com mil laços
da corrente das paixões,
vibrando com dois compassos
que apertam contra seu peito,
denominados: Meus braços.

Depois disse pra Geraldo:
- Como estás belo e crescido!
Faz seis anos que tu eras
o meu menino querido,
mas hoje és um rapagão,
propenso a ser meu marido.

Tu te lembras, meu querido,
da nossa sagrada jura,
que eu te pedi lealdade
te oferecendo candura,
a fim de surgir honrada
junto aos pés da Virgem Pura?

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Geraldo disse: - Eu me lembro
e nunca te maculei,
apenas na tua boca
por muitas vezes beijei,
mas tua santa pureza
com carinho respeitei.

Tu és para mim a mesma,
a minha Aurora querida,
a luz que guia os meus olhos,
a santa da minha ermida,
portanto, somos dois corpos
unidos numa só vida.

Eu vejo em teus lindos olhos
as mil crispas das centelhas
e noto um mel nos teus lábios
que não pertence às abelhas,
já para nossas testemunhas
quero Deus com as ovelhas.

Assim ambos se casaram
na capela da fazenda,
rodeados das ovelhas,
seu símbolo da contenda,
elas eram para os jovens
uma sagrada oferenda.

Juntos viveram sorrindo,
o vaqueiro Damião,
salvaguardava os seus bens,
isso já por devoção,
Lemos, sem querer morreu,
visto sim que recebeu
a fúria de Lampião.

FIM